um obscuro genocida?


Jair Messias Bolsonaro, o Obscuro, busca nas suas redes sociais as coordenadas para atravessar a pandemia. Não mede jamais seu impacto pelo número de mortos que empilha em nossa desamparada tristeza. Reage, uma vez mais, como o populista irresponsável e autoritário que tudo mede em termos de potenciais benefícios a suas reeleições. Como Chávez, Maduro e tantos mais, pensa e age sempre como ditador eleito.


O desgoverno que resulta desse desvirtuamento sistemático das instituições e princípios democráticos acumula prejuízos políticos, econômicos e sociais que exigirão anos, se não décadas, para sua contenção e correção. O estrago é grande.


Verdade que só a cegueira do antipetismo indignado de muitos, e a ignorância e ressentimento demente de uns tantos extremistas de direita impediram evitar-se o que, dados os antecedentes, já se projetava um desgoverno de milícias, rachadinhas, centrões, vendilhões de templos, terraplanismos, homofobia, misoginia, desrespeito reiterado aos direitos humanos e à liberdade de imprensa, ignorância e banditismo travestidos em desenvolvimento e virtude.


Podia e foi, porém, ainda pior. O núcleo familiar e ideológico do desgoverno destroi a política externa brasileira, faz terra arrasada da educação e da saúde públicas. A bancada da bala facilita o aumento dos arsenais privados e milicianos, e ignora civis (quase sempre negros e pobres) e policiais (igualmente pobres e negros) mortos. A bancada da bíblia entesoura dízimos, e extrai isenções fiscais e concessões de comunicação social.


O desastre maior parece, no entanto, advir do fracasso de um aparente projeto de contenção e controle do ex-tenente insubordinado, pelas altas hierarquias militares e oficiais superiores de maior prestígio. Para vários analistas, a exploração de uma nova alternativa de prevalência política mediante o aparelhamento da administração pública federal. O que poderia ter sido a válvula de segurança em uma empreitada de risco põe uma vez mais as Forças Armadas, instituição de Estado, na encruzilhada de um desgoverno.


O coronavírus empodera nossas deficiências e injustiças sanitárias, de infraestrutura. Sociais, e, por isso mesmo, também econômicas. O risco bolsonaro funciona como espantalho para investimentos internos e externos. E enquanto o Obscuro e filhos brincam de reizinhos absolutistas, contamos em silêncio nossos mortos.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso