toma que o filho é teu...


Não. Não estava jogando sinuca. Nem invadiu a sala alguma tresloucada. Só O Obscuro na televisão.


Lembro-me adolescente de vassourinha na lapela do uniforme, repetindo o Varre Varre do Jânio. Não me esqueço dos amigos queridos - vários - mesmerizados pelo Domador de Marajás. Sabia de há muito que o Messias no caso fora um militar insubordinado. Admirava torturadores. Orgulhava-se de sua misoginia. Praticava o desrespeito aos Direitos Humanos. Achava normal empregar parentes e amigos com o dinheiro público, e não desconheceria a "rachadinha". Mais que provável adepto da "lei de Gérson", teria mostrado sempre no mínimo indiferença com a destruição do meioambiente, atentados às populações indígenas e a invasão de suas terras por madeireiros e garimpeiros ilegais.


Imaginei, por isso mesmo, que outros tantos amigos queridos não soubessem dessa folha corrida do indivíduo em questão. Nem se dessem conta de que o indigitado parece querer fazer de sua ignorância virtude. O desgoverno que desmanda, sob a inspiração de um gurú da Virgínia e com os braços e as cabeças da "família real", príncipes herdeiros, olavetes, Pietros Pietras e milícias digitais acumulou, em pouco mais de ano, tantas perdas e prejuízos para a economia, a Nação e até a disciplina e hierarquia militares que serão necessários anos para o rescaldo desse incêndio.


O haitiano perdido na noite do cercadinho bolsonarista é um sábio. Bolsonaro já não é mais (terá sido?) presidente, mas a verdade é que segue ocupando a cadeira e agindo como se fosse. Em 2018, 37% dos eleitores brasileiros elegeram-no. Desses, talvez uns 20% de representantes da república dos toscos, de admiradores da tigrada dos subterrâneos da ditadura, dos ressentidos que a vida faz e multiplica. Os demais terão sucumbido ao voto negativo: tudo menos o PT, os mensalões e os escândalos.


O desgoverno de agora arremete diariamente contra a Constituição e as instituições. Às perdas materiais nos planos externo e interno ameaça agora somar, com seus desacertos, mais vítimas que as tantas que o coronavírus já fez e fará, infelizmente, com o aleatório da "peste".


Os 63% que não votaram nesse falso messias ou optaram por não votar dificilmente terão se convertido ao evangelho de obscurantismo, anticiência, anticultura. Esperamos, sim, somem-se a nós todos aqueles que, tendo votado em Bolsonaro, não se considerem representados em decisões tomadas ou inspiradas por um carluxo, um "rachadinha", um "bananinha", um astrólogo da Virgínia, um "imprecionante" ministro da educação, uma ministra que vê Jesus Cristo na goiabeira, ou um ministro do meioambiente que só parece feliz à luz das queimadas. Se não foi neles que votaram, talvez seja chegada a hora de dizer, alto e bom som, esse filho não é meu...


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso