tem prazo de validade a nova república?


Quando novembro chegar talvez se possa antecipar alguns movimentos no tabuleiro da política. Se não der Trump na cabeça, nosso Trump de hospício terá de engolir muita cloroquina para se reposicionar - e sobreviver - no mundo. O Obscuro tem, porém, inegavelmente, cátedra de oportunismo e, se é um desastre no atacado e no médio e longo prazo, se virou campeão mundial das causas anticiviliatórias, pode enveredar por outros desvios ao chegar na encruzilhada.


Bolsonaro não se constrange de desdizer-se, o que lhe facilita assumir ares de destemido. De quebra, a importante e necessária assistência emergencial, mais a projetada embalagem nova para o bolsa família abrem-lhe lugar no altar familiar da afeição dos menos validos. Tudo indica será gambito aceito: saem os eleitores desiludidos com o abandono de Moro, do liberalismo econômico de bandeiras despregadas e dos valores democráticos; entram antigos devedores e devotos de Lula. Quem sabe se, a despeito dos incômodos mortos da pandemia, 2022 não estará mais próximo que se imaginava. Uma jabuticaba brasileira a mais: o sátrapa reeleito sem sequer ter governado.


Mas nem tudo são flores no caminho da motosserra: as trapalhadas dos filhos do Capitão são mais desastradas que as maldades dos Sobrinhos do Capitão das histórias em quadrinhos da minha infância. A conta do luto e do sofrimento, das ameaças sucessivas às instituições e dos estragos ao meioambiente chegará, sem falta. Logo, ainda que os Democratas não consigam interromper a presidência reality-show de Trump, não há garantia de imunidade inata nem de impunidade adquirida para a família regente.


Talvez esteja chegando ao fim o prazo da validade da Nova República, da qual o bolsonarismo seria a última transmutação. A desnaturalização do Centrão em Blocão, pelo aguçado e testado instinto de sobrevivência de políticos de centrodireita, abriria caminho a um realinhamento partidário. O PSDB, o PT, os MDBs, os DEMs, os PTBs e tantos outros - sem falar nas barrigas de aluguel - arriscariam não receber sequer as honras de estilo. Bancadas identitárias teriam, provavelmente, de buscar maior transversalidade. De imediato, por certo, a recente demarcação de limites ao adesismo político-partidário pode tirar de Bolsonaro & Famiglia o porto seguro que imaginariam ter encontrado no Centrão contra a assombração de um impeachment.

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