Quem paga a conta?

Marina Silva, Ciro Gomes e FHC, domingo último, com Miriam Leitão, elegeram as três mais urgentes prioridades: defender a democracia contra os repetidos ataques do Obscuro e cúmplices ideológicos ou simplesmente toscos; juntar decência e compaixão para enfrentar a peste que nos enluta; e resgatar a economia cuja queda livre é acelerada pela conjunção de coronavírus e desgoverno.


Na economia cada opção tem consequências próprias: emitir; endividar-se em reais; captar algo da liquidez externa? Aumentar a aposta nos setores automotivo e da linha branca, ascultar perspectivas novas em produtos e serviços de saúde? Interrogações por toda a parte, com prós e contras de peso, sem falar nas forças políticas e poder econômico desiguais.


Uma vez mais, a equação da desigualdade. Logo na introdução de Capital e Ideologia, Thomas Piketty reitera: "A desigualdade não é nem econômica nem tecnológica: é ideológica e política." E relembra que a desigualdade de cada sociedade reflete a concepção de justiça social e de isonomia econômica nela dominante, além de ser a resultante da tensão entre grupos de poder e de narrativas díssonos. Não há porém seguro contra sequelas da desigualdade, nem tratamento preventivo para a irracionalidade de decisões.


A irracionalidade é fator quase sempre negligenciado, embora no médio e no longo prazos tornem, com frequência, contraproducentes ou opções nulas inspiradas antes pelos ganhos de curto prazo daqueles que, afinal, são os que mais têm a ganhar, em qualquer hipótese. No "day after" do covid19, percorrido o orçamento de travessia e, oxalá, com o bolsonavírus no retrovisor será preciso definir como substanciar a receita. Mais impostos e taxas regressivos ameaçam já matar miseráveis, pobres e parte da classe média. Uma carga tributária ainda maior para as empresas nos chamados setores produtivos da economia pode condenar o País de vez ao purgatório do atraso e da falta de falta de competitividade.


É tempo de egoísmo esclarecido. Tempo de exorcizar o mais do mesmo, de manter à distância piratas do capitalismo. E não falemos de mandamentos religiosos e morais - como imperativo do melhor interesse das desigualdades hegemônicas, com algumas concessões, modestas, como pedágio.


Tempo de adotar, sem preconceito tal como defendem Soros e vários de seus pares, impostos sobre o capital menos produtivo das grandes riquezas. De harmonizar a taxação entre salários, dividendos e outras retribuições. De contribuir ativamente para a construção, mediante cooperação internacional, de posições, comuns ou pelo menos coordenadas, para o tratamento fiscal de empresas gigantescas, de múltiplos domicílios de direção, produção e fisco, beneficiárias de engenhosos esquemas de isenções e estímulos fiscais nacionais, concorrentes.


Com o risco de novo e definitivo 7 x 1, essa não é uma plataforma revolucionária, sequer reformista. Mas a simples lista de compras do conservadorismo em uma democracia.







©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso