quando a peste entrar em recesso


(pintura de Solange Escosteguy, acrílico em tela, sobre tema do Remobília)

Não temos ainda o poder de suspender a peste. Dr. Strangelove/Posto Ypiranga, por exemplo, com todos os seus poderes só sabe suspender obrigações de bancos e grandes empresas e benefícios trabalhistas de pessoas: pagar transferência de renda e evitar "empoçamento" de liquidez nos bancos ainda está aprendendo. Mas Camus, com sabedoria, já nos ensinava que a peste é inevitável e recorrente, assim como a fatalidade é randômica. Os seres humanos não logramos escapar à finitude, donde a única resposta aceitável e possível para a peste, ativa ou adormecida em nós, são decência e compaixão. A alternativa é ficarmos quarentenados para sempre, com um guarda à porta e a dúvida na cabeça: quem irá guardá-lo quando se acabar de vez a esperança nos andares de baixo?


Quando tivermos desenvolvido defesas ao vírus e ele deixar de cobrar pedágio tão alto aos sobreviventes, é provável que muitas coisas mudem. Não necessariamente as que gostaríamos de ver mudadas. Há quem relacione a deliciosa caipirinha, com mel e limão, à gripe espanhola. No Brasil pós coronavírus e pós bolsonavírus, de repente a gravata some de vez do vestuário das autoridades, deixando sozinhos os paletós mal cortados e os botões estourando na barriga. Será demais,no entanto, dizer que nada será como antes, conquanto seguro apostar em mudanças.


A freada de arrumação de 2008/9 na ciranda financeira que animava o capitalismo rentista suavizou a quebradeira de empresas e agravou a desigualdade em todo o mundo. Pela primeira vez americanos passaram a imaginar que teriam uma vida menos confortável que a de seus pais. Onde - como no Brasil - políticas de transferência de renda e promoção social haviam logrado conter e mesmo reduzir um pouco a concentração de renda, com reflexos positivos nos índices de desenvolvimento humano, sobrevinham também a ressaca e as perdas de uma reversão frustrante e de alto custo eleitoral.


O sonho europeu perdeu vitalidade no tratamento abertamente desigual a países membros e suas populações. Saudades do império, medo da invasão dos cidadãos mais pobres da UE e dos refugiados da miséria universal cevavam um brexit que cenourinhas americanas ajudariam a estimular. Zumbis da extrema direita em várias partes da Europa renovavam o entusiasmo dos ideólogos de uma internacional direitista, aninhados atrás de supremacistas brancos americanos e das bandeiras de combate ao "perigo chinês".


Quando a peste entrar em recesso, nem tudo será como antes. Mas além de liberar nossos demonios e anjos, ela terá destampado várias panelas de pressão e exposto com violência mazelas e omissões. E poderá apressar assim o fim de uns tantos processos que se afirmavam há tempos.


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