nem tudo será como antes


Além da substituição ou complementação, no que couber, da previdência pela renda mínima, uma espécie de "bolsa família expandida" , outros temas - dissensos chave - deverão ser também equacionados quando a peste, uma vez mais, recolher-se provisoriamente à desmemória das gentes.


Na regulação das relações trabalhistas contrapõem-se as pressões de empregadores por reduções de custos e maior flexibilidade no emprego da mão de obra às tentativas de defesa de benefícios e direitos adquiridos pelo trabalhador, no caso do Brasil, de forma mais clara desde o getulismo. A terceirização, as pessoas físicas "juridicizadas", um ordenamento jurídico de aplicação crescentemente limitada aos menores salários e às atividades de menor qualificação específica, o peso maior da contribuição do trabalhador sobre os mais baixos orçamentos ( se é que cabe a palavra...) domésticos, certa preferência em segmentos específicos de colarinhos brancos (sem qualquer menosprezo mas apenas como tradução para white collar) por mais flexibilidade de horários e pagamentos nominais mais altos, níveis inconcebíveis de desemprego e sempre maior preponderância da informalidade conspiram decididamente contra direitos que se imaginavam sagrados e intocáveis. Enfraquecem obviamente centrais e sindicatos e aqui as perdas autoinfligidas do peleguismo e da corrupção onde se deram, entram apenas como o sal na ferida.


Regimes, direitos e deveres continuarão muito possivelmente a se diferenciar crescentemente no universo do trabalho. Nesse cenário a solidariedade não será a tônica, com o que, mais não seja por contraste, pode ampliar-se ainda mais o poder do empregador, privado ou estatal. A automação e em setores de importância inegável a inteligência artificial tendem a fragilizar ainda mais o poder negociador de mãos e mesmo de cabeças humanas. Os estoques aparentemente infindáveis de homens e mulheres desprovidos de melhor capacitação para o exercício do "trabalho decente" e em constante e desigual luta pela sobrevivência transformam em miragem o objetivo de "trabalho decente" proclamado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O "dumping" social continuará, por outro lado, certamente, a inchar as estatísticas de comércio e as dos contingentes humanos que vivem abaixo da linha de pobraza assim como a da miséria.


Aqui como alhures a peste não inova, propriamente, Aprofunda características e distorções que no mínimo insinuavam-se de há muito. Não parece haver chance de resgate dos "bons tempos"- referência hoje fortalecida apenas nos discursos da extrema direita populista.Uma rendição tampouco se afigura reconfortante, muito menos solução desejável. Donde, será imperioso encontrar novas bases para a reorganização do trabalho. Pautas mínimas em termos de pisos de remuneração, de condições de segurança e saúde física e mental no trabalho, de acesso a programas de capacitação e recapacitação. Mais que nunca, trocar o retrovisor por um mapa de navegação para o que estará depois da curva. Com o compromisso efetivo de um debate democrático para seus contínuo reajuste a desafios e necessidades.

©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso