com que roupa eu vou?


A roupa ainda não sei. Pra música já escolhi o piano brasileiro, pintado por Solange Escosteguy, para os Jogos Panamericanos de Toronto de 2015. Os que sobrevivermos ao vírus e ao desgoverno, o que vamos dançar?


Nada será como antes porque a peste despedaçou a economia e a sociedade, aqui e alhures. No caso brasileiro, porém, só quem acredita ou finge acreditar na própria mentira pode dizer que fomos abatidos quando já quase atingíamos velocidade de cruzeiro em céu de brigadeiro (o oficial, não o doce de festinha).


À exceção do agronegócio produtivo e competitivo (não o dos grileiros e caçadores de índios com o qual o primeiro não se confunde) não teria jamais ISO uma economia com 12 milhões de desempregados, metade da mão de obra na informalidade, resultados minguantes na indústria e pibinhos esquálidos. Nem o coronavírus, nem mesmo o bolsonavírus são os únicos exterminadores na paróquia.


Quando se compara a utilização da capacidade instalada de diferentes setores em abril de 2020 com as médias de 2014 e 2016 vemos que celulose e papel, com 90%, a indústria farmaceutica (80%) e alimentos (mais de 70%) apresentam vitalidade igual ou até maior que no triênio, já anêmico, de referência. Dois dos tombos esperáveis, com a debilidade da demanda nos tempos da peste, são couros e calçados (pouco mais de 20 contra pouco menos de 80%) e vestuário (20 contra quase 90%).


Mas se já sei que irei com roupa surrada ao samba do depois da pandemia e do Obscuro, nenhuma dúvida tampouco de que não irei de carro por questões de segurança e também de economia. A queda para veículos automotores é simplesmente abissal (70 contra pouco mais de 10% em abril). Alguma surpresa? Dá para pensar, seriamente, que, enterrados nossos mortos, voltaremos todos ao cabeça, tronco e quatro rodas?


Atendido (ou saturado?) o mercado interno, limitados e endividados os mercados vizinhos, fará sentido esperar que o setor possa voltar a ser a locomotiva da indústria no Brasil? O País dificilmente virá a ser a curto e médio prazos a opção para o desenvolvimento de modelos de ponta com cada vez mais tecnologia embarcada. Investimentos maiores em ciência e tecnologia destinam-se prioritariamente àqueles lugares em que já avultam os estoques de tecnologia e ciência. As cadeias produtivas próprias de cada montadora podem - e têm - com crescente frequência outros centros para tropicalização de produtos. E nosso mercado, hoje menos protegido, não parece mais tão promissor.


Sobra, porém, carne nesse osso: quando circularmos novamente quase sem medo pelo mundo, continuaremos provavelmente a nos valer muito da velha e recém redescoberta bicicleta. Teremos - quem sabe - acordado finalmente para a necessidade de não continuar empacotando pessoas, fomes e doenças em coletivos superlotados e caindo aos pedaços. Haverá - inxalá - futuro para a produção de mais, melhores e mais limpos meios de transporte coletivo. E - tomara - um mercado local, regional e mesmo mundial para autopeças de reposição e manutenção das parcelas, sempre significativas, das frotas à espera de renovação.

©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso