Feliz (?) Ano Novo


A gratidão é das virtudes menos populares entre homens públicos. Nenhuma surpresa, portanto, que o Capitão e o Doctor Strangelove atribuam-se todos os créditos das poucas, e oportunas, vitórias no primeiro ano de desgoverno de Bolsonaro I, o Obscuro. A limonada que o Congresso fez do limão amargo da tresloucada e extemporânea "Nova Previdência", por exemplo. A proteção, mantida, contra corridas ao Real, garantida pelas importantes reservas acumuladas na primavera de Lulinha Paz e Amor, igualmente. Até mesmo tênues laivos de disciplina da responsabilidade fiscal sacramentada aos tempos de FHC.

Menos mal para nós os que pagamos sempre, com caraminguás, uns, e carências, outros, os custos da construção, cheia de puxadinhos, do Brasil. Precisaremos de bons ventos, mais que nunca, pois como já dizia Ary Barroso "prá baixo todo Santo ajuda, prá cima é que a coisa muda".

O déficit recorde da saída de divisas em 2019, na marca de US$44 bilhões, em muito superior ao de US$16 bilhões de 2000 que levou FHC ao FMI, não pode continuar indefinidamente. Os gordos saldos de 2008 (US$87 bilhões) e 2012 (US$65 bilhões) não durarão prá sempre,

Os projetados 2,5% de crescimento do PIB para 2020, se concretizados, estarão bem abaixo da média projetada pelo Banco Mundial para as economias emergentes (4,1%). Verdade que ficarão cabeça com cabeça com as chamadas economias avançadas (2,4%), mas sem a rede de proteção social e a riqueza delas. E empatados, na média geral do mundo, o que, na melhor das hipóteses, significaria ficarmos onde estamos, sem recuperar posições perdidas.

Ainda na bola de cristal do Banco Mundial, o crescimento per capita da América Latina e Caribe de que somos o maior pedaço ficará só um pouco acima do projetado para Oriente Médio e Norte da África. Bem longe da Ádia e mesmo da Europa.

As cartas, pena, não predizem fortunas. Antes, agitam espantalhos. Em 1980 sofremos a crise da dívida soberana, nos corredores do Fundo. Em 1990, a dívida de todos cresceu mais que a economia. Não foram poucos os estilhaços em nossas praias. Em 2000, novo tsunami começando pelos emergentes como nós. Quase afunda o Real. Em 2008 a crise maior das pirâmides e roletas financeiras que nos chegou das Cities e Wall Streets, com algum atraso, mas em nada parecida com a marolinha esperada. Hoje, a curva do endividamento que cortara a do crescimento econômico em 2014, aumenta ameaçadora a boca do jacaré. Na média a dívida global chega já a 160% do valor do PIB e, nessa foto, até que não estaríamos mal não fora a inquietante aceleração da dívida sobre o produto no caso do Brasil.

Se nossa economia tocou realmente fundo e a frágil, mas bem-vinda, retomada ganhar corpo será, no entanto pouco provávell que o processo se dê de forma equilibrada e ininterrupta. Faz muito a indústria patina. Os últimos números não autorizam, por outro lado, maior confiança no vigor do setor de serviços. A diminuição, lenta conquanto positiva, do desemprego faz-se à custa de mais informalidade e na esteira de mais ampla terceirização. O agronegócio competente, nem sempre bem representado pela estridente bancada do boi, seguirá pelo visto como garante de um futuro para o País. Convém, porém ter bem presente que dentre os mercados emergentes e economias em desenvolvimento, de menor produtividade como um todo, são os exportadores de produtos de base os lanternas.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso