o bolso ou o coração?


Há quem acredite que o bolso seja mais importante que o sexo. Muitas vezes, sem dúvida, o bolso mostra mais sensibilidade que o coração. Certo, o prepoderante bolso nem sempre reage racionalmente. Deixa-se levar por entusiasmos súbitos, mesmo quando renega a especulação parece gostar de consentir-se em ledo engano.

O ressentimento, mais que o amor, é também um grande motor para feitos e desfeitas. E a vaidade, mais que a culpa, tem movido montes e posto a pique naus, mais, ou menos, insensatas.

Brexit prenuncia-se um amargo retrocesso na construção socialdemocrata europeia. Ameaça despertar demônios que se acreditava neutralizados nas Irlandas. Dá novo alento ao nacionalismo escocês e - por extensão - às demais causas de comparável inspiração. Pode satelitizar de vez o Reino Unido aos EUA de Trump. Revelar-se, enfim, um novo e importante revés para todos que queremos o desenvolvimento, sustentável e humano, como referência mandatória para um mundo com oportunidades e condições menos desiguais para todos.

Os eleitores no Reino Unido já tiveram todo o tempo para refletir sobre o que está em jogo para seu futuro. Escolheram maciçamente, no entanto, JoBo, o campeão do egoísmo não esclarecido, como alternativa menos pior, a seu ver, que o esquerdismo antiquado de seu oponente trabalhista.

Os apoiadores de Trump desconhecem solenemente os delitos políticos e de segurança de que é acusado. Consideram algo menor sua compulsão pela pós-verdade, sua paixão pelo autoritarismo. Apesar de tudo, o risco de impeachment parece controlado e quase mesmo negligenciável. E as perspectivas de reeleição nos braços dos bluecollars, dos conservadores que fingem acreditar que possa haver liberalismo econômico sem liberalismo político, dos supremacistas, da vanguarda do retrocesso são grandes.

Bolsonaro não tem programa de governo. Só um objetivo claro: o de manter-se no poder e exercê-lo como um monarca não-constitucional, junto a 01, 02, 03, quem sabe uma nova dinastia?. E, como têm apontado tantos outros com maior brilho, duas estratégias básicas: forcejar diuturnamente os limites da lei e da constituição com o cuidado para evitar o impeachment, e desconstruir as instituições e políticas consensuadas ao longo das últimas décadas, para o que libera seus ministros ideológicos, autênticos homens-bomba de mais uma guerra santa.

Nada de novo. Outros já seguiram o script, na esquerda e na direita. E os protocolos, no caso de Bolsonaro são bastante semelhantes aos utilizados por seu grande ídolo, Trump. Azar nosso se somos concorrentes noagronegócio.

Com todas suas conhecidas deficiências e insuficiências, Congresso e Judiciário tem desmontado a tempo alguns dos artefatos mais letais. A Nova Previdência foi substituída pela reforma da previdência. O pacote anticrime está sendo escoimado das licenças para matar. O COAF e a SRF, depois de muuito javanês, voltaram a ser operacionais. Verdade: a educação, a ciência, a tecnologia, a política externa já estão em frangalhos. O desinvestimento e a perda de credibilidade exigirão anos para voltarmos a ser considerados parceiros sérios e construtivos.

Nu, ou com calça de veludo, Bolsonaro e seu governar é ganhar eleições vai consolidando a dianteira para 2022, com seu cacife de uns 20% de eleitores de camisas verdes e amarelas. Até lá estaremos todos ocupados em conter os repetidos ataques ao acervo civilizacional e à institucionalidade democrática. E alguns, infelizmente, dobrando as apostas na polarização como o atalho para uma vitória que, a julgar pelos mais recentes exemplos de ingleses e americanos, poderá novamente não acontecer.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso