Bolso... quem?


Eleições municipais não servem em geral de prévia para pleitos nacionais. O truísmo será válido pelo menos na maioria dos municípios e dos casos, muitos ao longo do tempo. A polarização política brasileira já destruiu até amizades e agravou dissensos familiares. Não se deve excluir a hipótese de que prevaleça também nas eleições de 2020. Se assim for, o comportamento do eleitor em 2020 merecerá aind mais atenção.

Aparentemente o Brasil já tocou fundo. Na economia. A política ameaça ser um ralo sem fundo. O elefante não cabe no buraco. A "pechincha" brasileira sempre atrai quem busca uma "rapidinha" e também os que pensam seriamente em ganhar posições em mercado multitudinário, a despeito de seu limitado poder de compra.Retoques pontuais nos intervalos das crises de Temer, o reajuste deflacionário dos imóveis, o apetite chinês por proteína, a resiliência da abundosa economia informal, a atualização da previdência feita pelo Congresso em substituição à delirante nova previdência proposta pelo Posto Ipiranga, a força enfim do quotidiano, mesmo em meio à incompetência e à agenda autoritária do desgoverno, pressagiam uma recuperação, ainda que tímida, de perdas acumuladas desde os desacertos de Dilma e suas odes à mandioca, igualados quando não superados por Temer e Bolsonaro.

Bolsonaro I, o Obscuro, não terá realmente considerado jamais o mandato único - bandeira eleitoral. Sem surpresa, no poder demonstrou não ter qualquer programa de governo, com uma surfada ou outra no fabulário liberal, mas não democrático, de Guedes e no movimento contra a impunidade ainda identificado com Moro, não obstante seus - digamos - repetidos deslises éticos. Sem surpresa, tampouco, jogou as bestas feras olavistas na desconstrução ou ruptura de políticas e instituições arquitetadas e testadas ao longo da História. Não é de hoje o projeto do Estado sou Eu. E ao Capitão parece agradar o uso de homens bomba. Pra isso haverão de servir seus ministros "voluntários" (receberão contracheque?).

A preocupação única do Capitão é manter-se em evidência na visão dos brasileiros, se possível preenchendo sozinho o noticiário e a atenção da cidadania. Como bem ensinaram Chaves, Evo, Trump e tantos outros candidatos a ditador democraticamente eleitos, governar resumir-se-ia enfim em ganhar eleições...Simples assim. Nesse sentido não há como negar que a estratégia vem sendo seguida com eficiência. O País é pautado pelo factoide, a palavra de ordem introduzidos a cada manhã, na saída do Alvorada. E se for preciso emudecer qualquer outro discurso, ou ruido discrepante, pode-se sempre contar com 01, 02, e 03 (quando teremos o 04?). A família unida, unida desgoverna.

No que depender do Messias não haverá debate político. Propaganda é o do que precisa para manter a candidatura na midia que diz detestar tanto, e na internet supostamente turbonada por incansáveis robots (trabalharão de graça?). Nesse quadro resta aos democratas, liberais ou sociais, recorrer às instituições, Congresso e Judiciário, em primeiro plano, e invocar as leis, em especial a Constituição como o pacto máximo da sociedade, que a todos obriga, minorias das minorias ou maiores minorias.

Além disso, só o silêncio. Bolso...quem? E a reflexão sobre os anos por vir e a necessidade, a cada dia mais óbvia, da união dos democratas, conservadores ou progressistas, liberais ou sociais, em defesa do Brasil que sonhamos e com o qual nos comprometemos na Constituição Cidadã.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso