o Chile


De há tempos o Chile tem sido uma ideia fixa para liberais-democratas e direitistas de diferentes graus de vocação autoritária no Brasil. Não faz muito falei dessa obsessão em Una Amistad sin Límites, neste mesmo canal...A crescente concentração de renda, a reduzida mobilidade social, o regime de capitalização na previdência social que o Posto Ypiranga queria importar, mazelas e carências antigas e novas terminaram em uma explosão popular impressionante. Não será alarmismo acrescentar: com risco até para a alternância democrática direita/esquerda, conservador/progressista que tem marcado a vida chilena desde o Governo Ailwyn.

O silêncio dos admiradores brasileiros do modelo liberal chileno é preenchido por um altissonante "não disse?" de sociais-democratas e partidários das diferentes cores de esquerda. Com razão apontam fracassos de seus contrapartes em dividir o bolo da invejada economia chilena, em promover o acesso menos desigual à educação de qualidade e aos empregos de melhor paga. Denunciam a irresponsabilidade de assentar o sistema previdenciário de toda uma população na capacidade, inexistente, de poupança da grande maioria.

Sobram razões para as acusações, mas convém lembrar que desde a retirada gradual de cena de Pinochet, bem antes que se lhe descobrisse o enriquecimento ilícito, a democracia chilena tem sido garantida e consolidada pela alternância dos opostos no poder. Tampouco fará bem ignorar que desemprego, interrupção e reversão da redução da desigualdade de renda e social que se iniciara nos Governos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, escândalos de impunidade para corrupção motivaram protestos, nem sempre pacíficos, no Brasil de 2013 e suas duradouras sequelas podem ainda ser vistas na polarização política irracional dos brasileiros.

Se conseguirmos olhar um pouco mais além, teremos de registrar os múltiplos certificados de disfunção assinados na Oropa, França e Bahia...A socialdemocracia europeia em crise, o capitalismo darwiniano da República Popular da China, as ditaduras eleitas da Venezuela e tantos outros países, a vocação para monarcas não-constitucionais de Trump e Bolsonaro, os muitos zumbis nazistas e fascistas mundo a fora, tantos são, enfim, os sintomas de problemas agravados por idiossincrasias locais mas que têm pontos em comum a quase todos.

Nada porém deveria abater a resolução de todos em procurar soluções. Trocar o "e sou só eu, cadê os outros?" por um "estamos todos no mesmo Titanic" não leva a nada. Em meio a esse desastre e a todo esse desencontro, fazer prevalecer as fórmulas garantidas de A sobre as de B parece ser claramente inviável, quando não meramente transitório.

Para buscar consensos quem sabe não começamos por definir o que nos parece essencial para nosso futuro. Quem quer viver em guetos, ainda que luxuosos, confortáveis, exclusivos, mas que dependem da segurança 24 horas por dia? Quem quer acordar preocupado se afinal o guarda de plantão não se cansou de velar por nós e não há mais quem o guarde?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso