a quatro mãos


Nas entrevistas, Mia Couto e José Eduardo Agualusa falam do quanto se divertiram escrevendo as estórias de O terrorista elegante. Menor não é o divertimento do leitor com essa tabelinha ao estilo Pelé-Coutinho. E, como acontece por sorte com alguma frequência, o que se propõe como um trabalho leve revela traços profundos da África, das marcas doloridas do colonialismo, dos preconceitos que apenas mudam - quando mudam - de cara e de cor.

A leveza, o sorriso ajudam na exposição e crítica desses temas. Na nova versão do Terrorista Elegante, peça teatral de Agualusa e Mia Couto, o carismático "terrorista" angolano recolhe na tradição das beberagens e remédios dos "mais velhos", na força criadora do amor a sabedoria com que está pronto a enfrentar pesadelos e perdas antigos, tragédias e absurdos de sempre.

As mulheres que o colonizador não soube amar e não consegue matar lembram-nos, uma vez mais, do desencontro insanável das relações que se vivem como exercício de poder.

A superioridade da sabedoria do angolano detido como bode expiatório para o terrorismo que nos surpreende a qualquer esquina, assim como o delicioso empoderamento das africanas mal-amadas nos mostram com toda a graça desse "divertimento" o elaborado e vivido de uma cultura africana que, de um modo geral, desconhecemos. Fornecem ainda chaves importantes para a identidade da África de hoje e do futuro.


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