para ler e pensar


(foto de Oronzo Montedoro)

Os mais recentes e mal disfarçados atos de censura e iniciativas para garantir o triunfo do obscurantismo demonstram a oportunidade e acerto das palavras de Míriam Leitão, em seu artigo "Muito além da economia", publicado hoje em O Globo. Tem toda razão Miriam, "a economia não vai progredir sozinha. A ideia de que se pode modernizar a economia em um governo de propostas arcaicas é irreal".

Sinto por vários amigos que votaram em Bolsonaro por acreditar em Guedes, como se não fora esse outro ministro desidratável e descartável. E sinto por todos nós empurrados gradualmente para o mundo de Bolsonaro I, o Obscuro, e sua corte surreal. Sim, tem toda razão Míriam Leitão: "O Ministério da Economia fala em muitas reformas. Elas são ambiciosas: mudariam a estrutura do gasto público e implantariam um novo federalismo. O presidente se mobiliza pela liberação de armas, na defesa de torturadores e da ditadura, em favor do garimpo e da exploração mneral em terras indígenas, contra a proteção do meio ambiente e na garantia de vantagens para os filhos. A agenda da economia é uma retórica superlativa ainda sem projetos elaborados. A do presidente tem iniciativas, decretos e MPs que dispersam a atenção do Congresso. O progresso é muito mais do que um indicador e a economia jamais será uma ilha."

Inútil apontar falta de lógica no aintipetismo de bandeiras desfraldadas. Pouco adiantará tampouco tocar tambores contra o risco das idolatrias e as armadilhas dos mitos, e da mistificação, São nove meses de desgoverno e retrocessos. Temo acordar amanhã com a notícia da abertura da Transamazônica 2, ou as manifestações da Tradição Família e Propriedade nas ruas. Mas é difícil deixar de tentar entender como e por que chegamos aonde chegamos. Pelo voto. Com uns mirrados 10 a 15% do eleitorado saídos do armário para desfilar uma surpreendentemente organizada direita alucinada, que em nada deve a seus modelos nos EUA...

E nesse estado de espírito ouço o Valter Hugo Mãe, igualmente perplexo ante a realidade brasileira: "dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e só a melhor versão de cada instante, não vi que medeavam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade."


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