o profeta Disney


Começo a desconfiar que Walt Disney era também capaz de profecias. Custei a dar-me conta de que o Tio Patinhas da infância de tantos de nós amava o dinheiro pelo dinheiro. Sua fonte da juventude e do prazer eram os mergulhos em cédulas e moedas.

Thomas Piketty, com o documentadíssimo Capital no Século XXI, ilustrou as transformações que nos trouxeram ao capitalismo de entesouramento de ativos, cevado a episódicas cirandas financeiras e protagonista do agravamento das desigualdades por toda a parte. Pois pensando bem, Patinhas, o usurário simpático (que grande marqueteiro tinha!), o milionário de quem nunca se conheceram as indústrias, plantações, criações ou comércio, mas apenas o dinheiro, já nos tinha dado a dica.

A notícia de que 230 fundos internacionais com investimentos globais da ordem de US$16 trilhões alertam o Brasil para os riscos crescentes incorridos por má reputação, desmatamento e queimadas despertou a curiosidade. O PIB mundial somou em 2018 algo em torno de US$87 trilhões. O investimento direto estrangeiro em todo o mundo, no mesmo ano, foi da ordem de US$1,2 trilhão (US$59 bilhões em direção ao Brasil).

Produto e investimentos devagar, quase parando. Mas o que mais impressiona até o Diretor em exercício do FMI é o total hoje acumulado em contas offshore, em vilegiatura financeira: US$7 trilhões. É mais de um terço do produto dos EUA em 2018. E mais de quatro vezes o PIB brasileiro ano passado. São US$7 trilhões basicamente evadidos dos fiscos nacionais e de pouco, ou nulo impacto sobre produção e emprego mundo afora.

Com tão belas piscinas para se mergulhar e uma escancarada exacerbada aversão a riscos, para atrair investimentos será preciso mais que rentabilidade nominal e segurança jurídica: boas governança e reputação. Será que o Brasil de Bolsonaro I, o Obscuro, a quem com desvelo servem Moro, Guedes e o General Heleno, se qualifica?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso