nunca antes na história deste país...


...tivemos tão bons negociadores. E sei de muito boa fonte: foram eles mesmos que o disseram!

Na mágica dos factóides, bombados a disparos bem pagos de palavras de ordem na internet, em menos de 9 meses, além das sucessivas crises, teríamos tido grandes vitórias. Não voltarei a Alcântara, e perdoe-me Sousândrade que já partira afinal pra Wall Street

"— Dois! três! cinco mil! se jogardes,

Senhor, tereis cinco milhões! — Ganhou! ha! haa! haaa! — Hurrah! ah!... — Sumiram... seriam ladrões?..."

nem ao preço da entrada pra OCDE, com um brinde extra na quota de etanol dos EUA. Sem contrapartida, que a gente é altiva e rica, e não precisa.

Ante tudo isso, só resta mesmo confessar que somos gerações de incompetentes. Tantos anos sem conseguir fechar um acordo do Mercosul com a União Europeia. Umas poucas palavras (sim, sim e sim) e o caso está resolvido. Ou melhor, estaria, não fossem reputação internacional discutível, desmatamento e incontinência verbal evidenciados posteriormente, e a censura expressa pelo governo Trump a uma possível concorrência da velha Europa.

Voltemos ao ponto de partida. Erro nosso insistir na necessidade de harmonizar expectativas dos sócios menores (mas não menos Importantes) e sua compreensível preocupação de não perder posições duramente conquistadas no mercado brasileiro. Falha nossa em nos intimidarmos com o protecionismo do campo francês, dos cereais poloneses, do gado irlandês. Imperdoável de nossa parte atentarmos às demandas tantas vezes conflitante entre o agronegócio, poderoso por virtú e fortuna, e a indústria brasileira, com o emprego que encolhe e a tecnologia que falta. Tolice insistir em melhor preparar uma economia de serviços infante e franzina para uma competição aberta na primeira divisão.

Felizmente nos socorreu a todos a capacidade negociadora do Capitão Motosserra e seus bonecos ventríloquo, sem falar no poder da fé e a força da cruzada pelo renascimento da civilização ocidental e cristã sob a liderança de Trump. E, naturalmente, o sim, sim e sim. Minimizemos, pois, a importância para a assinatura do acordo quadro entre Mercosul e a UE de fatores, seguramente menores, como a iminência de um racha no bloco europeu com a possível concretização do brexit, ademais da quase certeza de que seria ou poderá ser seguido da rápida conclusão de um acordo de livre comércio entre o Reino Unido (que não tem campo nem vaca pra proteger) e o mesmo Mercosul. Sem falar no risco maior de redução de espaço para a Europa liberaldemocrata, nos escolhos do duelo comercial entre Washington e Pequim.

Como não convém acreditar nas próprias mentiras e delírios, minimizemo-los mas reconheçamos que, na verdade, esses fatores alteraram drasticamente o quadro negociador para os representantes de Bruxelas e puseram temporariamente em impedimento os goleadores do protecionismo europeu, para alívio de alemães, ingleses, holandeses e outros tantos cansados provavelmente de subsidiar o campo alheio com as cidades suas. É de esperar, portanto, que nossos representantes tenham atentado a essas mudanças no quadro de forças e tenham sabido valerem-se delas para intercalar umas adversativas e condicionais ao sim,sim e sim.

Será que assim foi?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso