um, dois, três...


Para chegar ao Planalto, Bolsonaro terá feito bem suas contas. Com seu instinto de sobrevivência política dificilmente acreditará em suas próprias mentiras. Teria quando muito 20 % do eleitorado, contados aí a extrema direita a ser tirada do armário, os núcleos duros da chamada bancada da bala, a seção (felizmente minoritária) do trogloagro, e os neopentecostalistas (não todos) que alimentam o sonho da tomada do poder político. Contava também com os discípulos do Rasputin da Virginia (alguns milhares de seguidores pagantes) e o ativismo de seu clã. Para fidelizar (olhaí o verbinho na moda) esses e atrair parte que fosse da legião de antipetistas empenhados na exorcização de Lula, era preciso anexar à sua campanha ou, pelo menos, poder escalar no seu governo, Moro e um Chicago Oldie como Paulo Guedes que sensibilizasse o antropomorfizado mercado.

Guedes e Moro têm agendas próprias, mal dissimuladas. O primeiro, mostrar ao mundo quanto se errou em não lhe dar o relevo que sempre teria merecido na condução da economia nacional, nas últimas décadas. O segundo, consolidar a Lavajato, varrer prá debaixo do tapete deslises - digamos assim - éticos, e posicionar-se para 22, Com o herói da inegavelmente importante guerra contra a impunidade e um confiável posto Ipiranga montaria o apoio eleitoral e garantiria o do poder econômico para os quase quatro anos de espera pela reeleição. Verdade que nisso não está sozinho: incrível como cada vez mais se disputa a vantagem na partida para reeleição e pouco se atenta ao exercício do mandato cuja renovação se pleiteia, antes mesmo de seu início...

Faltava-lhe também um mínimo de capacidade organizacional e de quadros com experiência profissional. Fanáticos, delirantes, bajuladores de tempo integral criam factoides, fazem barulho, podem até mobilizar passeatas, mas não afiançam um mínimo de efetividade administrativa, e a máquina do governo é grande e pesada. Hora, portanto, de desfilar o uniforme e reencontrar colegas e contemporâneos das escolas militares.

Muitos, eu inclusive, pensamos que o Messias cometera seu primeiro erro ao convocar Moro a quem - imaginávamos - não poderia dispensar. Menos de nove meses de desgoverno e parece claro que, embora o Super Moro tenha ainda mais cacife popular que o Presidente eleito por 37% do eleitorado, já passara a etapa da dependência recíproca e hoje afigura-se até possível que Moro dependa mais de Messias para sua sobrevivência, seja no Supremo (premio de consolação cada vez mais remoto), seja para lançar sua carreira políticoeleitoral, do que esse daquele.

Depois das despedidas de Levy e de Cintra, fica claro que Guedes, assim como Moro, tem toda a liberdade para formar sua equipe e o Presidente para despedir-lhes os escolhidos. O posto Ipirange é afinal apenas um ministro, por definição demissível ad nutum. E a convicção liberal do Capitão, se nunca foi liberaldemocrática tampouco terá sido liberal. A esperada conversão do longejo deputado do baixo clero terá sido natimorta, para tristeza do antropomorfizado mercado.

"Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas Das pombas vão-se dos pombais, apenas" começado o desgoverno.

E com o melhor muito obrigado ao Raimundo Correia, fica a pergunta: a esta altura quem serve a quem. Os oficiais superiores que viram na candidatura do ex-capitão a chance de testar os limites de atuação para um "partido" militar em um regime democrático, ou o populista que parece se comprazer em ser o Capitão Motosserra, o Átila dos Direitos Humanos e campeão do obscurantismo?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso