o grande negociador


Acreditar que o que é bom para Trump é bom para o Brasil é uma repaginação piorada do desacreditado se é bom para os EUA é bom para o Brasil. Bolsonaro I empilha a política externa de seu desgoverno nisso. Táoquei. Passemos ao largo da premissa. Façamos mais uma penitência: credimus quia absurdum. Mas, absurdo ou não, seria ao menos de esperar que nosso monarca não-constitucional não deixasse escapar oportunidades de fazer um bom negócio para o Brasil.

Davos à parte, na primeira de suas viagens o Messias ofereceu a Trump o uso da base de Alcântara. É certo que o acordo com a Ucrânia não funcionou, que tivemos um acidente trágico na cidade do Guesa Sousândrade e que continuávamos sem poder explorar, sozinhos ou com parceiros, a apregoada vantagem locacional para o lançamento de foguetes. Valha pois novo esforço para acomodar as salvaguardas pleiteadas, sempre, lógico, que se possa usar livremente, por exemplo, os pagamentos a receber dos EUA no que bem entendermos , inclusive no desenvolvimento pelo Brasil de veículo lançador ainda que o projeto envolva a chamada “tecnologia dual”, em princípio utilizável tanto para fins civis como militares.

Na Casa Branca, além da foto com o Grande Líder do Ocidente Cristão e da tietagem entusiasmada que por pouco não comprometeu tropas brasileiras para uma intervenção na Venezuela, o Capitão falou também de dois de seus sonhos de consumo (quem não os tem?): ser membro da OCDE e aliado preferencial da OTAN. Como estamos no Atlântico Sul, não teremos direito ao guardachuva da defesa do Tratado do Norte, mas afinal nuestros hermanos já têm essa carteirinha desde 1998 e ela dá supostamente direito a preços e condições especiais na compra de material bélico dos EUA. Põe no carrinho e parte pro abraço, mas, por favor, sem se iludir: a mesma carteirinha pode nos colocar na linha de tiro de quiproquós, cavalos loucos e terroristas desgarrados.

A entrada pro clube da OCDE merece também atenção. Declinamos fazê-lo no passado, embora tenhamos nos associado à Organização e nos beneficiemos de muitos de seus trabalhos sobre governança e economia. Trump prometeu apoiar a candidatura contra a renúncia, pelo Brasil ,ao direito ao tratamento especial e diferenciado na Organização Mundial do Comércio,. É na OMC que se contratam normas e acordos multilaterais de comércio e se dispõe de um raro mecanismo para solução de controvérsias. Como no anúncio do cartão de crédito: isso não tem preço. Não é pouca coisa contar com prazos maiores para adoção de novas normas, exceções consentidas à regra de nação mais favorecida (mesmas tarifas para todos), e outras compensações como, para ficar em apenas um exemplo, contribuições subtancialmente menores para a manutenção de organizações internacionais. O México, a Coreia e outros que entraram pro clube da OCDE não tiveram de pagar esse pedágio. Imagina se os Bolsonaros não fossem simpatizantes declarados do Trump 2020...


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