o capitão motosserra contra a França profunda, na nova guerra das lagostas


A "crise internacional" das queimadas é toda da lavra de Bolsonaro I, O Obscuro. Se continuar nesse ritmo arrisca virar Bolsonaro I, O Breve, e a interdição, a mais nova antecipação de Miguel Reale Jr.

Que os franceses adoram o Brasil e sonham com este país d’ ici bas, sabemos todos. Já deu até música - linda, por sinal - do Chico e filme - saboroso - de belas “‘cunhatãs".

Mal empossado e sempre possuído pelo caboclo da palavra solta, o autodenominado Capitão Motosserra bateu no peito que ia tirar o Brasil do Acordo de Paris e furou o compromisso de sediar o próximo encontro. Sem deixar a bola cair, pôs em dúvida a reputação pessoal e profissional do diretor do INPE e de todo o corpo técnico do Instituto. E emendou com um sem pul, para isolar pro mato (sem trocadilho) noruegueses, alemães, ONGs e Fundo da Amazônia.

Não entendeu e a administração do Itamaraty não explicou que o proativismo - respeitado e construtivo - do Brasil em meioambiente e direitos humanos serve não apenas para que possamos melhor cuidar de nossos interesses e de nossa gente, mas também para manter piratas longe da costa e mercados abertos para nossos produtos.

Bolsonaro - como bem apontou um amigo - escolheu ser Galtieri. Pra quem cultua Pinochet, Chaves e Ustra não surpreende. Só que "autenticidade" custa dinheiro, ainda mais quando o mundo treme com o esforço atabalhoado de Trump pra deter o crescimento chinês e a redução do participação dos EUA no bolo. Má hora para que O Obscuro case (em sentido figurado, naturalmente, e em uma relação hetero), de papel passado, com Trump. No passado houve quem dissesse que o que era bom pros Estados Unidos era bom pro Brasil. A nova versão é mais personalizada.

Para complicar, Macron juntou oportunismo político, em defesa da França profunda e da gente comprometida com o meioambiente, à irresponsabilidade da convocação de cruzada por uma difusa internacionalização do que não lhe pertence. Tudo bem misturado, em partes iguais, à já proverbial boa educação e ao talento negociador de Bolsonaro deu no que deu.

Vem por aí uma reedição da Guerra da Lagosta? Tão inútil quanto a primeira, mas de possíveis prejuízos maiores para os interesses brasileiros?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso