o homem de muitas caras


Quando jovem, quis ser uma espécie de Chaves brasileiro. Aposentado capitão, virou o Paulinho das Forças Armadas e da Polícia. Destaque do baixo clero, carpiu ditadores e torturadores. Eleito com 34% dos votos dos eleitores inscritos, pensou haver sido coroado monarca não-constitucional. Pela persistência da dúvida ou falta de agenda, segue encarapitado no palanque, em campanha para as eleições de 2022 a que jamais se candidataria.

Certo, outras promessas foram esquecidas. A nova política é a cara da velha. O filhotismo lembra em tudo o nepotismo. A simpatia por milicianos, a antipatia aos fiscais do IBAMA, a revolta contra os pardais da estrada - se não o eram - foram entendidos como um sinal verde para o desrespeito às leis em nome de um libertarismo confuso. Afinal deve ser mesmo complicado implantar liberalismo econômico em um organismo apascentado no corporativismo, cunhado em nacionalismo jacobino e infatigável anticomunismo.

No mais, é bem verdade, o consumidor tem o que comprou. Bolsonaro I tem usado todas as máscaras que , de tão ajustadas à pele, vai ver fizeram-se carne. É o Capitão Motosserra. O Átila dos Direitos Humanos. O fi-lo porque qui-lo do politicamente correto. O gatilho rápido do novo oeste. O flagelo da cultura. O imã dos terraplanistas de toda espécie. O campeão dos garimpeiros. O defensor incansável dos grevistas dos transportes. O inspirado de Deus ( afinal já traz Messias no nome ) a lembrar-nos que a missão histórica do Brasil e quilha de nossa política externa é promover o fortalecimento do Ocidente cristão sob a liderança iluminada de Trump.

Ante tantos atributos e determinação o mundo tinha que curvar-se novamente ao Brasil. Pena não se distinga celebridade de notoriedade. Mas foi exatamente por se ter feito indiscutivelmente notório na Oropa, França e Bahia que Bolsonaro I, O Obscuro, logrou parir uma crise internacional.

Desgovernantes questionados, de diferentes latitudes e longitudes, agradecem a "photo opportunity". Aderem rápido a líderes reconhecidos e à opinião pública na denúncia da suposta incompetência brasileira em cuidar de sua riqueza, seu próprio povo e futuro.É missão impossível desdizer a palavra do "rei". Deixar o dito pelo não dito e reafirmar compromissos nunca assumidos e sempre combatidos. Por atos e palavras.

Ah, se existisse uma, uma só que fosse, máscara de estadista nessa inquietante coleção de máscaras.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso