das terras bárbaras, uma carta à rainha louca


Lilia Schwarcz, no excelente Sobre o Autoritarismo, lista os fantasmas do passado ainda presentes nas nossas atribulações quotidianas: a escravidão e o racismo; o mandonismo; o patrimonialismo; a corrupção; a desigualdade social; a violência (que é do homem cordial?); raça, gênero; e a intolerância. Dois igualmente ótimos livros, quentinhos da prensa (existirá ainda?), vão fundo em várias dessas questões.

Maria Valéria Rezende ganhou, com sobrados méritos, um Jabuti com Quarenta Dias. Para sorte de seus leitores, reincidiu com Outros Cantos. Como se fosse pouco, presenteia-nos agora com a Carta à Rainha Louca.

Tem felizmente aumentado o número de bons livros sobre as múltiplas dimensões da situação da mulher. Os crimes de que continua a ser vítima, as desigualdades que tem de enfrentar, as insjustiças contra que tem de clamar. Tantas vezes para ouvidos moucos.

A carta à Maria I (sim, a própria) deles fala com a veracidade da voz da vítima, a paixão e a serena beleza das narrativas de Maria Valéria. Ressalta mais ainda por escapar à armadilha que não raro prejudica defesas apaixonadas, sinceramente verdadeiras, de questões identitárias: distorções, involuntárias mas não menos verdadeiras, pelo estreitamento do foco. Concedo, desde logo, que também as grandes angulares distorcem a imagem...

A carta não esquece os horrores da escravidão, as arbitrariedades do poder, os rastros de corrupção de muita riqueza acumulada. Sem em nada diminuir a força e urgência da personagem e seu libelo.

Das terras bárbaras é, surpreendentemente, uma estreia na ficção. Da capa à contracapa uma narrativa segura e elegante, Atenção e capricho na escolha das ilustrações. Segurança e erudição na criação dos tempos vividos e reconstruídos.

As aventuras e desventuras da personagem principal e de seu antepassado revelam um Brasil verdadeiro, cruel como podem ser seus habitantes, e, ao mesmo tempo, fascinante como podemos ser em nossa diversidade e até na barbárie.

Índios, bandeirantes, escravos negros, jesuítas, sexo na rede, sermões, mordisquelas na orelha, comissões de inquérito - tudo documentado no rigor com que pretendemos resumir vidas e paixões, nem sempre confessáveis, que parecem responder à intensidade da flora, à grandeza do cenário e às culpas e conquistas da história.

Ah, e praqueles que se lembram de remotas aulas de Latim tem de quebra o desafio e o prazer de acompanhar as muitas (e nunca gratuitas) citações e sua tradução, a lembrarem-nos intermitentemente dos modelos elaborados de que deriva nossa cultura ocidental de referência.

Bemvindo Ricardo da Costa Aguiar!

#MariaValériaResende #RicardodaCostaAguiar

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