oito de dez: Pepetela


Devo a Pepetela horas de maravilhamento nas páginas de seus livros. Devo também algo que resultou muito valioso para os anos em que tive a honra de servir em Angola: uma chave para ver aquele nosso vizinho do lado de lá do Atlântico.

A obra de Pepetela versa sobre os capítulos essenciais na formação de Angola, a afirmação de sua independência e o desafio de seu futuro. A narrativa escorreita, o comentário agudo, a compaixão assumida por seus heróis nomeados e anônimos.

Quando se tem a oportunidade de viver por algum tempo na África e em Angola em particular, a gente se dá conta do quanto de África e de Angola há em nós, independentemente de nossos ancestrais conhecidos. Mais que nas veias, está no olhar. Revela-se tanta vez na forma de sentir o mundo.

A Gloriosa Família fala de um tempo em que os destinos dos brasileiros e angolanos de hoje entrelaçavam-se mais firmemente ainda, com o domínio holandês em Pernambuco e na costa angolana. Conta de uma São Paulo de Luanda que se definia a cada dia mais claramente, à beira do mar que compartilhamos. Expõe o mecanismo perverso do comércio de açúcar e o tráfico de escravos.

Imperdível, para angolanos e brasileiros.

Para cumprir com a regra do jogo, chamo para roda Marília.


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