a pasárgada de cada um


Manoel, o Bandeira, tem razão: há para cada um de nós uma pasárgada, possivelmente inatingível, quase sempre inatingida a despeito do sentimento de realização que se possa ter e dos sinais externos de êxito que se acumulem. Um auxiliar de mecânica que mal conseguia engraxar a sobrevivência da família, sonhava ter um caminhão de três eixos, voltar à vila natal e enguiçar no meio da rua principal ao meiodia de sábado, para o testemunho de seus conterrâneos. A pasárgada do Ministro Guedes será talvez o reconhecimento acadêmico e político de seus inegáveis talento e inteligência, alçando-o enfim ao patamar dos pais do real e dos demais samurais laureados da economia brasileira.

Só isso pode explicar a decisão de abandonar o que já estava na mesa do Congresso e propor, em seu lugar, a "revolução" de uma nova previdência. Se calhar, na desafortunada opção nem mesmo a vontade de emular-se ao Messias e sua nova política;terá sido o fator decisivo. A nova previdência serve, claro, a um modelo de atividade econômica com a qual o Ministro está familiarizado e um setor em que se notabilizou. Reflete ademais a visão de mundo e o ideal de país com que se identifica. Revela a soberba que tantas vezes acompanha o gênio e o napoleão de arrabalde. Mas diz muito também de sua pasárgada. E se não serve para o Brasil e os brasileiros - que pena - tanto pior para nós.

É bem verdade que confrontado com a notícia das vítimas do modelo chileno de capitalização , o Ministro tirou prontamente do estojo de utilidades mágicas um imposto de renda negativo para disfarçar a miséria dos figurantes anônimos do espetáculo do enriquecimento privado e dos PIBs bombados. Como há sempre uma primeira vez na vida, tudo isso me faz lembrar o Presidente Médici, diante dos pibões do "ame-o ou deixe-o": "a economia vai bem, o povo vai mal".

Mesmo com meiassola, a previdência por capitalização é definitivamente opção válida para quem pode se dar ao luxo de poupar e investir. E se os 80% dos que hoje têm previdência continuariam a depender do Tesouro para inteirar seu benefício de fome, o défice - vejam só - continuaria exuberante e renitente, e mais vitaminado ainda porque a capitalização dos restantes 20% serviria apenas a eles e à economia empresarial que viabilizariam,

Como um bom Chicago Oldie, o Ministro Guedes há de saber que não há almoço grátis. No Brasil do desemprego alto e persistente, da informalidade e precarização do trabalho, da concentração de renda que volta a agravar-se e do pibinho de lupa, a nova previdência, tal qual a velha, espetaria no Estado a conta do passe de mágica capaz de produzir fabulosos trilhões.

No plano real de nossos calos e mazelas, precisamos realmente reajustar as regras da previdência à nossa longevidade ou sobrevivência, à precarização do trabalho que faz com que apenas 30% dos trabalhadores possam pensar em ter uma aposentadoria (ainda que insuficiente), e à terceirização dos que já foram os melhores salários do mercado. É tempo realmente de um ajuste a mais na batida do iniciado nos idos de FHC, Lula e Dilma. Sem qualquer ilusão do abretesésamo mágico que reporá por si só o País no ritmo do crescimento com inclusão.


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