dos súcubos e íncubos da demonologia quotidiana


Quando o Capitão Messias assumiu a Presidência pensei que iria, de pronto, atacar os males que denunciava em sua altissonante campanha e começar a enfrentar, simultaneamente, os maiores problemas que torturam a gente brasileira, ainda que se tenha declarado no passado partidário da tortura. No bolo com os amigos cravei "combate ao desemprego", e dobrei na "reativação da economia". O Presidente encaminhou, com alarde (devo dizer fogos?), a proposta de flexibilização para montagem de arsenais domésticos.

Aos tres meses de governo, na montanha-russa das declarações dos filhos 01, 02 e 03, dos olavetes, dos que vêem Jesus na goiabeira e as do Presidente em primeira pessoa, pensei que finalmente o Governo uniria todas as forças, sob o comando do Professor Pardal, digo, Posto Ipiranga, digo, Ministro Guedes, o Chicago Oldie, para atacar o câncer da previdência que nos estaria a devorar alma e ossos. Perdi novamente no bolo: o Presidente determinou às Forças Armadas que celebrem como devido o golpe de 31 de março de 1964.

Embora a questão de previdência continue ainda desfocada na mira do Capitão, unanimidades à parte haverá provavelmente consenso em que as mudanças na distribuição etária da população, na composição dos gastos da previdência e nas condições dominantes nas relações de trabalho exigem um reajuste dos parâmetros do sistema atual. Essas as alterações que se deve ter em conta para que o diagnóstico e, consequentemente, a proposta de ação resultem mais acertados. De não esquecer, tampouco, que desta vez não temos mais uma jabuticaba, exótica e exclusiva: o envelhecimento das populações e a precarização do trabalho impõem-se cada vez mais como os novos padrões, e podemos e deveríamos mesmo apreender um pouco com o sofrimento alheio.

Sabemos que o deficit da previdência cresce fortemente e pode tirar-nos de forma duradoura de uma zona de ainda relativo conforto na relação dívida/produto, com consequentes limitação ao crescimento econômico, aumento da pobreza e da miséria, e agravamento da desigualdade de renda. Mas atenção: o diabo pode estar solto, mas não está sozinho. Deficit da previdência, serviço da dívida, peso e caráter regressivo da carga fiscal, corrupção, baixa e frágil escolaridade e vários outros fatores importantes conjugam-se para formar a tempestade perfeita que nos assombra. Ou seja: ainda que aprovássemos hoje, no todo e a seco, a proposta ambiciosa do Ministro Guedes, com os jabutis e penduricalhos que a completam, nem a redenção estaria assegurada, nem os efeitos logrados trariam a rósea perspectiva do "e viveram felizes para todo o sempre".

Que não se tome como ameaça, mas voltarei a nossos súcubos e íncubos...


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso