dos gurus e rasputins, dos monges loucos e da direita alucinada


Na composição de forças na corte dos Bolsonaros o vetor mais surpreendente é a ala dos protegidos e discípulos de Osvaldo Carvalho. São vários os ícones e aspirantes ao estrelato na direita alucinada americana. Faz sentido tenhamos nosso brazuca presente. Tampouco faltam rasputins na história, mais importante ou menos publicável, das tantas cortes e arremedos de corte mundo a fora e memória ao esquecimento. Mas na composição de um governo, por mais disfuncional e ineficiente que seja, devem pesar necessariamente cacife e representatividade. Não deveria ser diferente em Brasília.

A violência está longe de ser tema suficientemente equacionado no Brasil. Ainda assim será possivelmente correto dizer-se não existir o mínimo indício de que venha a ser superada adequadamente com a multiplicação dos arsenais privados e a flexibilização das normas para porte de armas. Com tudo isso, porém, é inegável que a bancada da bala tem eleitores nas cidades e no campo. Invocar o direito à legítima defesa para estimular a substituição do monopólio estatal da força pela anomia do salve-se quem puder será, para muitos como eu, um erro de dramáticas consequências. No entanto os votos dos rápidos no gatilho pesam tanto quanto os dos demais, e é normal que, na busca mandatória por consensos operacionais e máximos divisores comuns, todo e qualquer governo atente também a mais essa minoria.

É igualmente questionável qual o interesse maior da chamada bancada da bíblia. Concessões de comunicações, isenções fiscais e vantagens materiais parecem ser, com frequência, prioridade mais alta que a moral e os preceitos em nome dos quais são reclamados - e quase sempre obtidos. Às favas com a laicidade do Estado, os direitos das demais religiões, dos ateus e dos agnósticos. Temos aqui uma verdadeira coleção de minorias, todas com seus direitos e deveres, e todas com seus votos. Não são poucos os eleitores que optam por um "voto religioso" e, consequentemente, na busca mandatória do consenso possível e do bem comum republicano, quem esteja no poder deve cuidar de ouvir os membros dessa bancada, ainda que possa quando em vez questionar sua efetiva representatividade.

Não dá, nem convém, tampouco ignorar a força econômica e política do agronegócio, particularmente no Brasil. Se essa com as demais bancadas não instrumentarão, por si sós, uma governança efetiva, nem poderão tomar o lugar dos partidos no proscênio do teatro do poder, continuarão a ser provavelmente importantes na batalha feroz e contínua por votos, e suas bandeiras têm, assim, de ser conhecidas e, eventualmente, reconhecidas.

A cada um desses vetores de influência sobre a corte dos Bolsonaros correspondem, pois, claramente certo peso eleitoral e dimensão não negligenciável na economia do País. Surpreendem assim o protagonismo dos olavetes, os salamaleques e deferências a seu mentor. Gurus com frequência fazem a cabeça de pessoas e a elas toca por vezes desempenhar funções chave na governança de homens e coisas. Em uma democracia em que os mandos - sem prejuízo de seus desmandos passados e futuros - saem ungidos das urnas e delas dependem para a vitalidade do poder, surpreende realmente a força de que se gabam os que não têm cacife eleitoral. Delegar qualquer atributo do poder a quem não tem mandato institucional para exercê-lo promove a deslegitimação do mandatário.

É isso que Bolsonaro e sua corte chamam de nova política?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso