sopinha de letras


O fim da Nova República deu em algaravia na sopa de letras da política e dos partidos brasileiros. PT, PSDB, (P)MDB perderam corpo e brilho da grandeza que ostentavam. Os demais, sobreviventes ou recém-montados, mal conseguem escapar às sinas de nanicos, legendas de aluguel, velhas senhoras ou hospedagens de oportunistas. Messias, o Comunicador, aluno aplicado de Trump e discípulo indireto de Olavo/Bannon, pensou pescar nas bancadas temáticas: bala, boi, bíblia, bola, botafogo, quantas mais haja. Talvez seja forçado a concluir que é preciso mais para governar, que limitada a elas a construção de consensos operacionais resulta mais que acanhada, inviável.

Nas transições, surpresas muitas vezes superam o engenho dos improvisos. Assim têm brilhado, com distinta grandeza, outros acrônimos, alguns apócrifos, no movimentado cenário político. No primeiro plano a PM, o MP e o PM. E antes que se recorra a outros códigos, mais diretos e ofensivos, troquemos em miúdos.

A PM que mais mata e mais morre, da insegurança nossa de todos os dias, maior sempre entre os que menos têm e mais à margem de tudo vivem. A insegurança que - nada de novo - não se resolve facilitando a liquidação de arsenais para uso doméstico e eventual exibição na via pública. Nem tampouco se atinge desconvidando profissionais qualificados para participarem de conselhos, seguindo com a exclusão sistemática do espaço público dos críticos e dos adversários, tratados sempre como inimigos.

O MP dos heróis-procuradores e, por extensão, juízes que começaram o tão esperado e necessário processo de desconstrução do padrão de impunidade para corruptos, bem-nascidos e abastados. O mesmo MP de alguns arroubos, não desejáveis nem defensáveis, que ameaçam repetir a história dos tenentes e de tantas revoluções degeneradas em governo.

O PM, esse "partido" formado por oficiais superiores das Forças Armadas, comandos competentes e experimentados na governança de homens e coisas. Têm eles em seu DNA ademais do claro nacionalismo, a duradoura suspeita de uma intentona de comunistas de há muito desaparecidos ou desconvertidos, e a convicção - à custa da insistência alheia e da autoatribuição - de que lhes cabe, até como dever, o exercício do poder moderador.

Os membros desse PM têm, hoje, a experiência de algumas décadas de governança democrática no país e - quase todos - a vivência da responsabilidade de comando e funções-chave em forças e missões de paz das Nações Unidas em que os militares brasileiros conquistaram, com méritos, reputação de equilíbrio, honestidade e dedicação.

Resta saber se os integrantes desse "Partido Militar" lograrão, igualmente, aqui, funcionar como freio-de-segurança e grilos falantes do bom senso, sem terminarem pespegados pelo desgoverno, o discurso de ódio e o intermitente desrespeito às práticas chanceladas pela democracia e a Constituição.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso