o diferente pode ser igual, e o igual, diferente


Mais que possível parece provável: dia 28 podemos trocar um sindicalista por outro. Bolsonaro, julgado não-culpado de rebeldia militar por maioria de votos no Superior Tribunal Militar,há 30 anos, assumiu logo a condição de defensor das condições de trabalho e de remuneração dos militares. Lula saiu dos sindicatos para se tornar a personalidade maior da esquerda política, sem jamais deixar por completo a visão de mundo do sindicalista. Assim, quem espera de eventual governo do Capitão uma reforma radical da previdência precisará provavelmente ajustar suas expectativas a algo mais próximo do que poderia vir a ter de um governo petista. Com Bolsonaro, os gastos com os servidores militares (cerca de 45% dos gastos totais com as despesas de previdência com servidores) ficarão seguramente de fora.

Governos militares e governos de esquerda são muitas vezes apontados como estatizantes por privatistas de quatro costados. Nesse sentido não surpreenderia se eventual governo do Capitão viesse a optar por estatais na tentativa de solução de problemas no Brasil. Ainda na fase do "aquecimento", o projetado governo Bolsonaro já apadrinharia a criação de um Barômtero Brasil, uma estatal de pesquisa de opinião.

É verdade que o Capitão reafirma sempre que tudo o que respeita à economia será cuidado por seu "posto Ipiranga", o economista Paulo Guedes. Que o mercado fique portanto tranquilo, afinal o "posto Ipiranga" é um dos craques do mercado financeiro. Não fica porém claro se isso bastará para tranquilizar os demais setores da economia, em geral chamados de produtivos em contraposição ao financeiro. Bastará efetivamente para garantir a satisfação das expectativas dos eleitores mais ricos e algo remediados do Capitão Bolsonaro? Pérsio Arida observa: "Se economista liberal resolvesse, o governo Dilma teria dado certo quando nomeou Joaquim Levy, de Chicago também, como Paulo Guedes, mas com uma baita experiência, ao contrário de Paulo Guedes".

Os cálculos do Professor Pardal do Capitão, de arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações, por exemplo, não fariam sentido, segundo Arida. "Bolsonaro fala que não vai privatizar Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. Mas nem se privatizar os três com 100% de ágio para prêmio de controle se consegue esse valor", disse.

Arida e muitos, se não a maioria, dos economistas brasileiros à direita da Professora Maria da Conceição Tavares criticam igualmente a recriação do CPMF - imposto em cascata - e temem que a proposta de capitalização da Previdência que estaria sendo cozinhada no posto Ipiranga não pararia em pé. Mas os eleitores da primeira Classe, da Executiva e da Econômica Prêmio não devem perder as esperanças. Afinal todos votamos em candidatos a presidente, não naqueles que eles pensam designar seus ministros da Fazenda e a quem poderão nomear ou demitir como se lhes ocorra.

As opiniões defendidas por Paulo Guedes em sua já longa candidatura ao estrelato não invalidam hipóteses de conflito com o Capitão Messias: “A ‘direita’ brasileira afundou com a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A ‘esquerda’ brasileira afunda agora com a morte da velha política por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República.” Ou, ainda: “O baixo crescimento e a corrupção sistêmica marcaram a transição do capitalismo de Estado do regime militar para um capitalismo de quadrilhas sob a obsoleta e despreparada social-democracia”. Observe-se: Paulo Guedes considera social-democratas petistas, tucanos e afins.

Temo que a decepção possa ainda atingir amigos, eleitores do Capitão, por conta da famigerada caixa 2. Essa mesma que, no passado recente, em todas as fileiras políticas e não apenas entre petistas, com frequência terminou confundindo esforço "informal" de campanha e enriquecimento ilícito de pessoa física. Afinal como enquadrar as denunciadas contribuições não contabilizadas de empresários para o custeio da "blitzgrieg" do Capitão da Reserva Jair Messias Bolsonaro rumo ao Planalto?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso