declaração de voto


A dias de um segundo turno que se afigura cada vez mais definido, de uma eleição de monólogos e palavras de ordem, permito-me o confessional.

À medida em que o Capitão foi se tornando menos desconhecido, a despeito de seus quase 28 anos de Congresso, dei-me conta de que não daria jamais para votar nele porque perdi amigos torturados e mortos por opinião política (não estou falando de luta armada, outro equívoco histórico da esquerda) e não posso votar em quem defende a tortura. Não daria porque sou casado há 47 anos com uma mulher maravilhosa e pai, há 38, de uma jovem mulher fantástica. Por respeito a elas e a todas minhas amigas, não posso votar em um machista que considera estuprar mulheres que considere “merecedoras” dessa violência. Não daria porque tenho um filho homossexual a quem respeito, admiro e amo e não posso votar em alguém que se orgulha de ser homofóbico. Não daria porque tenho amigos negros, descendentes de asiáticos e outros de indígenas, e não posso votar em alguém que mede negros por arrobas e parece pavonear também o seu racismo.

Preocupa-me ainda mais porque quem sair eleito dia 28 terá de ser o Presidente de todos os brasileiros e não apenas dos que votarem nele ou se identificarem com suas posições. E exatamente entre as chamadas cláusulas pétreas da Constituição que está o respeito mandatório aos direitos e garantias individuais. Primeiro Mandatário de todo a Nação. um presidente de todos os brasileiros não pode ser machista, racista, homofóbico, nem tampouco haver - ainda que há tempos - admitido queimar o Congresso em clara ofensa a outra das cláusulas pétreas da Constituição.

É difícil para muitos, provavelmente a maioria, dos eleitores lidar com uma eleição que será decidida por exclusão, em termos do "mal menor". Ao histórico de falas e atitudes autoritárias, discriminatórias e antidemocráticas do Capitão se contrapõe, nessa tensão, um antipetismo monolítico que o PT e seu líder maior, o Presidente Lula, parecem não raro aplicar-se por consolidar, ademais de o terem justificado por atos e falas.

Com redobrado esforço - confesso - reequaciono o dilema por uma escolha entre o que identifico como o compromisso com a Constituição e todos os avanços conseguidos desde a proclamação da Carta Cidadã, e o desrespeito e a ameaça reiterados a sua letra e espírito.


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