um piano brasileiro


Anos atrás, para a promoção dos Jogos Panamericanos de Toronto os organizadores pediram a artistas dos países participantes que preparassem um piano representativo da cultura nacional. Este o piano brasileiro, criado por Solange Escosteguy. Foi cossolista em um concerto em praça pública e, com os demais, ficou semanas à disposição do talento de passantes, arredondando desafinos com evocações saudosas do Brasil.

O desafio de pintar um piano brasileiro pareceu-me de cara insuperável. Vê-lo pronto e ouví-lo tocado com entusiasmo e, por vezes, inspiração reafirmou-me a confiança na possibilidade de se reverter cenários os mais desesperançosos. Pois vamos precisar de vários pianos para o 7 de outubro.

A largada não poderia ter sido pior. O político mais popular e influente do país cumprindo pena por corrupção, inelegível, e a indagação crescentemente ensurdecedora: cadê os outros? O sentimento de injustiça sobrepondo-se à questão primeira da culpa ou inocência, e o ressentimento sufocando o Lulinha Paz e Amor.

A sequência foi ainda mais preocupante. Um capitão despreparado, agredido a facadas em plena campanha, a direita brasileira que pela primeira vez se assume como tal, além de intentos atabalhoados de recolocar os militares no centro do quadro político como um suposto poder moderador cujo exercício não lhes compete e para o qual não estão tampouco apetrechados.

Na reta final o panorama é no mínimo paradoxal: aproximam-se do segundo turno as duas candidaturas fortemente polarizadoras que têm, de longe, os maiores índices de rejeição.

Como omissão não é alternativa, o voto útil será, ao que tudo indica, inevitável para muitos. Antecipá-lo, porém, para a primeira votação não será necessariamente sábio, nem ajudará a que o eleito venha a ter mais claramente presente a composição de forças que, como presidente de todos os brasileiros (e não apenas de seus eleitores de fé) deverá obrigatoriamente reconhecer para governar.

Votemos assim com convicção e coração no dia 7, sem esquecer nunca a importância vital de escolher, pelo critério de excelência, os futuros deputados e senadores. O voto útil terá provavelmente sua hora e vez, para muitos de nós, na segunda rodada eleitoral.

Reconheçamos todos que a indefinição é muito incômoda. Quem sabe Chiquinha nos ajuda com seu Corta Jaca? Venha de lá o piano!


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso