a gorda


A personagem de Isabela Figueiredo cresceu, como a autora, na Lourenço Marques/Maputo colonial. Volta a Portugal antes mesmo da família, na leva de regressados na diáspora dos colonizadores ao tempo da independência das colonias. Maria Luísa não se ilude com a trombeteada generosidade da presença portuguesa na África, nem com a fraternidade da acolhida aos retornados. Seria porém demasiado e injusto pedir-lhe que não amasse seus pais, nem sua pátria, as referências de quem é.

Gorda, sempre deslocada, solitária, Maria Luisa é também todos os que somos minorias, ou minorias nos sentimos. Os estranhos no ninho. Os sem-graça. Os sem-público. Os sem-reconhecimento.

A Gorda é um relato em primeira pessoa, que avança e recua, entre Moçambique e sua memória, entre Portugal presente e vivido. As referências à história e ao quotidiano contextualizam economicamente a trajetória de Maria Luisa, a inteligência madura e a afetividade infanto-juvenil, mais uma no coro.

E no entanto que bela voz tem Maria Luisa, como nos enriquece ver as mudanças lá fora por seu olhar crítico e frequentemente bem humorado. Forma-se a empatia, naturalmente. E seguimos, mais que interessados, partícipes de suas venturas e desventuras.

Não há bariátrica para angústia da alma. Mas sempre consola saber que, enquanto der, lograremos resistir ao mau tempo do último ato de ópera (evié, Nelson Rodrigues!)


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso