O Bispo ameaçado de "impeachment" e as eleições


Crivella prometera ser prefeito e licenciar-se dos encargos de bispo enquanto permanecesse à frente do governo da cidade do Rio de Janeiro. O noticiário, infelizmente, indica que que a promessa foi esquecida. Agora, com o encontro fechado para mais de 200 bispos evangélicos do Rio, com a oferta de canais diretos de acesso à saúde pública e à direção do IPTU, vemos que mais que promessas quebradas o Bispo parece resolvido a privatizar a Administração Pública em favor de sua igreja.

Crivella parece assim confirmar as teses, inúmeras, sobre a ideologia de poder com que o segmento neopentecostal da bancada da bíblia lança-se na vida política. O sonho, tão absurdo quanto perigoso, de uma teocracia vai configurando, com preocupante clareza, propósitos de domínio do terreiro, do centro e das demais igrajas, com o discurso do obscurantismo e da intolerância, tudo em nome de um projeto de poder.

O lamentável episódio demonstra uma vez mais os riscos de se misturar religião e política. A única forma de se assegurar a liberdade política e religiosa é a prática da democracia, com a qual são claramente incompatíveis discursos de intolerância contra os "outros", suas religiões, ateísmo, cor, gênero, posições em questões de consciência, ou mesmo clube de devoção.

O denominador comum da bancada da bíblia - assim como aquele de outras bancadas assemelháveis - é o da satisfação, válida ou não para o restante da sociedade, de interesses específicos como, no caso, isenções fiscais, acesso privilegiado a serviços do Estado, e a concessão de meios de comunicação. Para viabilizá-los, os autodenominados representantes desses grupos têm procurado se impor mediante a troca de apoios e uma narrativa centrada em uma agenda proclamada em nome de Deus e encorpada pela intransigência. Difícil dizer em que medida o cacife que dizem ter é real, até que ponto os quase 30% dos brasileiros evangélicos se disporão a bancá-los, e em que medida dobram suas apostas esperando que ninguém pague para ver.

É bom ter o caso do Rio de Janeiro presente antes de votar nas próximas eleições, independentemente da sua cor, raça, religião, ou gênero. Em respeito aos demais. E para seu próprio bem.