em nome de quem?


Peço emprestado à Andrea Dip, autora de documentado estudo sobre os parlamentares da bancada da Bíblia, o excelente título de seu livro. Verdade que, com tanto desastre e ridículas patuscadas no circo de cavalinhos da política brasileira, um que outro absurdo passa batido, escapando a exemplar e merecido escracho. Sem surpresa, Crivella protagoniza mais um desses despropósitos a varejo que, para mal maior, configuram não raro - como agora - golpes à Constituição.

A O Globo, o prepóstero prefeito sustenta que se a suspensão da encenação de "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu" for considerada censura, eu vou dizer a você que é. É uma censura que garante os direitos de liberdade religiosa e das pessoas não serem ofendidas na sua liberdade religiosa. Não chamo isso de censura. Enquanto eu for prefeito, nos espaços públicos administrados pela prefeitura, nós não permitiremos qualquer manifestação que ofenda a religião das pessoas (...)".

Eloquente, como sempre, o bispo, e equivocado como nunca. A democracia, laica, brasileira respeita felizmente a liberdade de credo e culto, direito que assiste a todas as confissões, independentemente da raça ou origem de seus crentes e origem de suas confissões. Crivella, bispo da minoria evangélica, eleito prefeito de todos os cariocas, não é - mas teria de ser - o prefeito de todos os cariocas, o que inclui todas as minorias religiosas e reconhece, em um mesmo plano, ateus e agnósticos.

A não encenação da peça como resultado de censura que alegadamente garantiria direitos de liberdade religiosa de uma, ou de algumas minorias, fere a igualmente fundamental liberdade de pensamento e de criação, e violenta a liberdade de outras minorias e da coletividade como um todo

Em nome de quem fala o bispo Crivella que, nesse caso, usurpa as funções de prefeito da cidade? E com que autoridade se atribui o antidemocrático ofício de censor geral do novo obscurantismo?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso