planos de navegação


As incógnitas são muitas. A visibilidade, baixa. Ainda assim é possível procurar advinhar quais seriam hoje os planos de navegação de personagens e partidos para tentarem chegar ao Planalto.

A manutenção declarada da candidatura Lula serve a dois propósitos: manter vivo o Lula Livre e jogar todas as fichas na possibilidade de Lula repetir o feito de eleger mais um "poste" eleitoral. O primeiro tem mais a ver com a orientação da defesa de Lula que, por sinal, mostrou-se, de início, amadora e desorientada. Quanto ao segundo, são outras as circunstâncias o que dificulta o milagre. Lula sempre foi maior eleitoralmente que o PT. A radicalização do PT e do ex-Presidente na estratégia da vitimização pode reduzir signficativamente os contingentes de lulistas de fé. Tempo curto, pouco carisma e a rejeição a fórmulas sem cabeça-de-chapa petista conspiram contra um bem sucedido bis nas urnas. Desânimo, por outro lado, desagua mais facilmente em abstenção, voto em branco ou nulo, tudo enfim que pode viabilizar candidaturas mais anêmicas, de candidatos e partidos muito menos populares.

Bolsonaro cresceu como o antilula enquanto a candidatura de Lula parecia certa ou, pelo menos, viável. Há que se conceder: o ex-Capitão julgado, em 1987, culpado de atos de indisciplina e deslealdade para com seus supreriores e, em seguida, absolvido pelo Superior Tribunal Militar, conquistou, desde o início de sua carreira política, o segmento reacionário mais fundamentalista do eleitorado do Estado do Rio de Janeiro. Com "a ameaça de nova vitória de Lula" afastada ou reduzida resta a saber se o despreparo de Bolsonaro e sua aberta vocação para candidato a ditador não lhe tirarão gás na corrida final. De qualquer modo, nas atuais condições de temperatura e pressão, parece nome altamente provável em um segundo turno tido como certo.

Contraparte do PT nas últimas décadas, o PSDB, que com ele e o MDB têm mais tempo gratuito de TV e rádio, não convence no enfrentamento à corrupção - ponto fundamental em qualquer plataforma para o êxito eleitoral em tempos de lava-jato. O "inominável" Aécio e o constrangimento por Eduardo Azevedo complicam ainda mais a "saia justa" das denúncias de Caixa 2 e de outros casos de propina. Alckmin saberá seguramente que não lhe bastará ter ótimo desempenho em São Paulo e todo o Sul - algo que não pode tomar como favas contadas. E para "viajar" Brasil a fora, legenda e candidato precisariam de mais "alegro vivaces". A estratégia de jogar parado - já identificada por vários analistas - pode não garantir lugar no segundo turno, apesar do tempo de televisão e a infraestrutura político-partidária dos tucanos. Enquanto espera pelo desgaste de concorrentes mais afoitos, o ex-Governador paulista talvez faça novena para que lhe caia no colo o MDB com seu dote de tempo de comunicação, ainda que a custo de compromisso com o futuro de Temer a partir de janeiro de 2019.

Se no passado Marina já assustara seus eleitores por suspeitada vocação para Joana d'Arc, a Senadora, a quem devemos alertas e bandeiras para inadiávels desafios ecológicos, preocupa agora por parecer antes perplexa - quem sabe mesmo desarticulada - pela sucessão de inesperados e assustadores desdobramentos da crise nossa de cada dia. Fica a impressão de que, nesse quadro, não consegue ocupar plenamente o espaço político a que se qualifica por méritos e experiência. Pena: poucos terão comparável potencial para despertar empatia com o eleitor médio brasileiro. Acresce que os competidores não têm obviamente interesse em tornar-lhe menos difícil a vida e, sem Lula na disputa, preferirão possivelmente ter Bolsonaro como o adversário do segundo turno. Marina parece não ter conseguido ainda montar um núcleo respeitável, ainda que pequeno, de campanha. Os índices da candidata nas pesquisas de opinião parecem sempre aquém do que seria de se esperar de sua candidatura.

Cid é o irmão, mas Ciro, o mais destemperado dos Gomes, faria mais jús a um codinome de El Cid el Campeador. Combatividade, aliada no caso a vivência, pode ser vantagem em um tabuleiro tão cheio e cenário tão indefinido. Ciro, nascido em Guaratinguetá postula a herança dos votos nordestinos lulistas e dos votos dos demais lulistas menos alinhados com as diretivas do PT. Para reforçar suas chances, já apreciáveis neste estágio, cuida de apoiar Lula sem subscrever palavras de ordem acesas na tocha de revoluções (alguns relatos de caravanas mais recentes do ex-presidente pareciam aspirar a uma revivência da Coluna Prestes). Mas Ciro cuida igualmente de pastorear possíveis ovelhas em rebanhos mais ao centro de preocupações nacionalistas, com boas chances de sucesso.

Não faltam aspirantes, ou quem se apresente como tal. Em alguns casos, candidaturas sem qualquer perspectiva, postas na rua na tentativa de garantir posição de menor irrelevância ou alguma imunidade futura. Caberá nessa caixinha o já testado e rejeitado Fernando Collor de Mello. Outras, como as de Guilherme Boulos e Manuela d'Ávila, mais à esquerda, e a de João Amoedo, do Novo (encubado à sombra da Casa das Garças) que parecem servir a estratégias de mais longo prazo e apontar para proposições mais novas, com maior atenção às mudanças na composição demográfica e social do Brasil (dos sem-teto de um Brasil já esmagadoramente urbano, aos LBGT e a alguns dos profissionais melhor qualificados para a economia da Tecnologia da Informação, da Ciência e Tecnologia).

Sem falar em candidaturas nascidas para reservar espaço ou reduzidas a tal, como as oferecidas por Rodrigo Maia, Henrique Meirelles, Flavio Rocha e Paulo Rabello de Castro. Nesse grupo valeria distinguir a candidatura do Senador Alvaro Dias cujo nome poderá ainda vir a crescer caso nenhuma das demais candidaturas ditas de centro não chegue a decolar.


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