a ditadura da unanimidade


O trabalho de Carlos Zílio, dos anos de chumbo, hoje incorporado à coleção de Roger Wright na Pinacoteca de São Paulo, apresenta claramente o risco da unanimidade. A mesma unanimidade por que parecemos tantas vezes ansiar como solução para problemas e dilemas, a despeito de conselhos, sábios como o de Nelson Rodrigues, de que "toda unaminidade é burra" e, por isso mesmo, "quem pensa com a unanimidade não precisa pensar". Basta dizer sim. Ou calar-se.

A inelegibilidade e a prisão de Lula, as gravações de Aécio e a caixa dois do PSDB em São Paulo, a entrega da Administração Pública a oportunistas corruptos disfarçados de políticos como preço da impunidade temporária, o despreparo e a atração ditatorial de Bolsonaro, a multiplicação de candidatos que se enfraquecem uns aos outros na competição pelos mesmos segmentos de eleitorado, a falta de caras novas capazes sempre de reacender o velho sebastianismo - tudo enfim contribui para que, a despeito da vontade de mudança, pelo menos no plano presidencial, venhamos a ter, aparentemente, mais do mesmo.

O esparramo não surpreende. A sociedade, de há tempos, está dividida. As duas últimas administrações, de Dilma e de seu Vicepresidente, fizeram regredir emprego, produto e a mitigação - que se iniciara - da iníqua e antieconômica concentração de renda e ativos. Voltamos, em grande estilo, ao "vôo da galinha", às sagas das décadas perdidas, à diáspora do desengano e da falta de oportunidade.

Nem todo estoque de pirlimpimpim do mundo daria jeito rápido, indolor, sem adicionais perdas e danos, nessa lambança toda com tantos fundamentalistas à solta. Será uma eleição presidencial decepcionante, por um lado, e atomizada na contagem dos votos. Dificilmente o segundo turno permitirá a formação de uma clara maioria no coração das gentes e nas bancadas do Congresso.

Será, por isso mesmo, mais que nunca essencial escolher bons representantes para a Câmara e o Senado. E ajardinar a disposição para a busca de consensos, mínimos que sejam, sem esquecer da urgência de algumas agendas, como as da educação e da saúde.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso