Gilda, a mulher transparente


Desde a velhinha de O Criado Mudo sabemos como Edgard Telles Ribeiro é capaz de criar personagens femininas fascinantes. Desde O Punho e a Renda devemos a Edgard uma das mais interessantes novelas sobre a vida de pessoas e instituições nos anos de governos militares no Brasil: o quotidiano dos regimes de exceção nas terras de Santa Cruz. Em Uma Mulher Transparente Edgard devela aos poucos Gilda e com ela as cicatrizes fundas das vítimas dos porões de 64 e as marcas tantas vezes vivas de nossa fragilidade.

Cristiana, a desconhecida do vestido vermelho, Rosário, a mulher desaparecida nas águas de Paraty, e Gilda, alias Samantha, que, na transparência de sua dor e no escudo de sua força, enfeixa a trindade feminina têm por contrapartida a trindade menos mesmerizante, mas nem por isso menos complexa, do narrador/autor, Guilherme e Herculano. Homens e mulheres cumprem seus destinos, para os quais contribuem, até onde alcança sua resistência, com sua vontade. Ao fundo, o Rio de Janeiro dos anos 60/70, seus atores e extras, mais, no caso, uma das vítimas dos anos de chumbo.

O ritmo da narrativa não surpreende. Edgard conhece muito bem seu ofício. Gilda, o vértice da trindade, senta-se à sala e fica nos olhando, com sua dor exposta e seu choro contido, horas a dentro, terminada a leitura.


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