as naus da servidão


Nestes tempos de novas e tantas migrações forçadas, impossível deixar de lembrar os navios negreiros. Traziam os braços para explorar a terra, plantar a riqueza dos colonizadores. Braços de homens e mulheres que plasmaram em larga medida nossas história, cultura e identidade.

O MASP oferece uma bela retrospectiva da obra de Emanoel Araújo, credor de nossa admiração pelo trabalho que desenvolveu à frente da Pinacoteca e, desde 2004, na curadoria e direção do Museu Afro-Brasileiro. Como se isso fosse pouco, Emanoel é um dos artistas que melhor elaborou sobre as raízes africanas da arte brasileira.

Emanoel Araújo recriou com madeira e pregos, mais o rigor - no caso- pungente da geometria, os navios negreiros. Toda a dor do escravo na expressão mais simples da forma.

No Instituto Tomie Ohtake voltam os navios negreiros, ali como a equação de poder dos impérios e do aniquilamento de gentes. Os trabalhos de Arjan Martins já enriquecera, faz pouco, a excelente mostra Ex-Africa no CCBB. Seu tema: a escravidão. Da contabilidade do ganho vil ao exercício do poder da força. da dor do desenraizamento à semeadura de uma nova Nação.

Passa o tempo, mudam as coordenadas, tudo parece tão diferente mas a intensidade da dor parece igual. As novas naus da servidão, da migração forçada pela fome e perseguição política, tiveram, no Brasil, em Lasar Segall, quem lhes interpretasse o horror e a renitente esperança. Trabalhos do mestre lituano-brasileiro enriquecem as coleções da Pinacoteca e outros centros culturais do País.


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