"O mito é o nada que é tudo"(Fernando Pessoa)


Em entrevista recente a O Pavio, Mariella Franco repetia uma vez mais que não se pode falar a sério de insegurança - um dos sérios problemas que temos de equacionar - sem se ter presente a insegurança de quem mais a sofre, no corpo, os favelados do Rio e dos demais depósitos habitacionais Brasil a fora.

Clara e precisa. Racional e apaixonada. Mariella, assassinada com seu motorista eventual, representa com emoção e verdade a maioria dos brasileiros - formada por mulheres, e negras, e pardas. Representa também a grande maioria dos ainda marginalizados, social e economicamente - o núcleo verdadeiro de nossa população. Representa ainda perseguidos e excluídos por questóes religiosas, de gênero e orientação sexual.

Todos deveríamos contar, pelo menos na perda. Todas as vítimas, das anônimas às mais conhecidas, merecem nosso respeito e compaixão. Poucas, raríssimas, porém, como Mariella, Herzog, Edson Luiz, e outros tantos, encantam-se como bandeiras das causas a que serviram. E marcam momentos em que, aos trancos e barrancos, o País, Nós, mudamos quase imperceptivelmente a princípio, de rumo. Se algo pode confortar em todo esse episódio de covardia, é que as novas bandeiras que nos comovem e levam às ruas, são mais que nunca bandeiras de todos e agitam-se sobre toda a gente brasileira, na construção necessária e inevitável de uma sociedade mais inclusiva, justa e - por isso mesmo - econômicamente próspera.

O poleirinho das almas, de nosso João Ubaldo, recebeu outro espírito de luz. O mito - dizia Pessoa - é o nada que é tudo. Sobrevive à estupidez, à ignorância e à cegueira histórica.

Já a Desembargadora Marília Castro Neves segue buscando afirmar-se como a liderança do atraso, a figura de proa da maldade e da burrice.


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