A César o que é de César


Já lá se vão uns 50 anos desde que vi em um Bienal de São Paulo um carro comprimido por César. Foi um dos pontos altos da mostra. Surpreendia. Fascinava. Em particular àqueles como eu, maioria segura nas extravagâncias das bienais. Pouco sabia do artista, além das drágeas preparadas para a divulgação junto ao público maior. Um carro inteiro reduzido a um volume cuboide de metal colorido...

O inesperado levava-nos de pronto a perguntar por que, a especular significados e a advinhar intenções. A compressão de um carro criara outra coisa, um objeto atraente e singular. E a arte fazia-nos a todos olhar com olhos novos a realidade de todos os dias.

Há poucas semanas, tivemos a sorte de ver uma completíssima retrospectiva da obra de César Baldaccini no Pompidou. Muito menos familiarizado que Solange com o trabalho do marselhês, descobri, outra vez fascinado, que as surpreendentes compressões foram uma etapa de uma obsessiva exploração das múltiplas transformações do objeto quando recriado em arte.

Primeiro foram as construções a partir da agregação de pedaços de material. A solda juntava o que o cinzel desbastava no bloco único frente ao escultor. Depois as compressões e as expansões dos objetos que escapavam, os últimos, dos seus limites originais. Em seguida o objeto envelopado, inteiro, reconhecível facilmente, e preservado do tempo em um envólucro que o singulariza no horizonte do olhar. Por ultimo, a figura, reconstruída em volumes orgânicos.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso