o ciclo de Lula


Difícil dizer quais os próximos desdobramentos das ações contra Lula no Judiciário. Muito mais fácil avaliar - a despeito do clamor das paixões desencontradas - qual o seu legado e o seu mais provável destino político.

Tenho um amigo marciano que, por sê-lo, consegue ver o mundo sem o peso nem a beleza da paixão. Prá ele desde Getúlio não aparecera outra liderança política tão marcante quanto a de Lula no Brasil. Meu amigo é viajor contumaz e leva algum tempo - não sei se muito para um marciano - nesse turismo.

Parto da constatação dele. Tivemos outros protagonistas na cena política que deixaram marcas claras e positivas. JK e FHC, para citar apenas os que se fizeram mais conhecidos pelas iniciais que pela intimidade do nome. Mas há que se falar em um ciclo de Lula, como se fala em um ciclo de Vargas. E os órfãos de Lula não serão menos numerosos, nem menos fervorosos que os de Getúlio.

Independentemente dos próximos capítulos no Judiciário - que por isso mesmo é um Poder independente no modelo de democracia ocidental e representativa que nos propusenos seguir - e sem levar em conta a comprovada capacidade de Lula de reinventar-se, parece delinear-se um impasse político de difícil superação. O sindicalista metalúrgico de extraordinária capacidade negociadora e visão pragmática conseguiu ser o líder dos pobres e o interlocutor dos ricos. Mas não logrou puxar as cordas simultaneamente de um PTB e de um PSD, tal como Getúlio. Se o PT é, de há muito, lulodependente, o "Lulinha paz e amor” que chegou à Presidência desaparece na decepção de uns e na estratégia da vitimização política da defesa legal de Lula até a entrada em cena de Pertence. E à medida em que a imagem vencedora e duradoura, de 2002 e 2006 se esfumaça também encolhe o cacife político de Lula que, eleitoralmente, sempre foi bem maior que o PT.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso