os iniciados e a história


Dois belos filmes, ora em exibição, tratam da identidade gay, do amor e da história. Têm ainda em comum a simplicidade comovente do relato e um travo amargo ao final. A paisagem não poderia ser mais diferente, nem tampouco o grau de desenvolvimento econômico das culturas em que se dão suas narrativas.

Os Iniciados, sulafricano, conta a estória de jovem negro gay urbano forçado a participar da iniciação tradicional a que, com decrescente frequência, submetem-se os jovens, nesse caso, da etnia shoze. Que se cumpra a vontade do pai, membro da elite empoderada e abastada negra, esperançoso de que as tradições se provem uma efetiva cura gay.

Iniciados, em sua quase totalidade do meio rural e de famílias de menos recursos econômicos, são guiados, individualmente ou em grupo, ao longo dos dias de iniciação, por seus cuidadores. Estes últimos, escolhidos entre os mais velhos das aldeias e os trabalhadores dos segmentos de menor especialização da cidade.

A iniciação que, em tempos idos, incluiria seguramente a introdução aos valores e tradições maiores de uma cultura, quase se resume agora ã circuncisão a frio dos iniciados e à aplicação de curativos da medicina tradicional.

Para azar do iniciado gay, seu cuidador, trabalhador braçal e solitário urbano, mantém há tempos uma relação homoafetiva com outro cuidador, o mais temido de todos no grupo, pai de família e expoente das tradições shozes. O campus é a oportunidade para se encontrarem e viverem seu amor não assumido, ainda que por poucos dias ao ano.

O culto às tradições parece aqui o último suspiro de um mundo em extinção. A coragem do jovem gay de assumir-se como tal não encontra guarida nem respeito, seja entre os tradicionalistas, a despeito de exemplos históricos, nem na cidade longínqua e desiniciada.

A assunção da identidade gay de Elio tem outros cenários. Me chame pelo seu nome é, de quebra, uma festa para os olhos. A história está viva nas estátuas resgatadas ao esquecimento do fundo do lago e nas pedras polidas dos edifícios da cidadezinha multicentenária.

Aqui se anda de bicicleta por opção, e um pequeno coletivo caindo aos pedaços, como o que se vê nos Iniciados, seria seguramente proibido de circular. As refeições e as frutas no pomar aguçam o apetite da plateia. As personagens todas, independentemente de onde provieram, estão na linda cidadezinha mas são do mundo. Falam-se em diferentes línguas e dominam seus sentimentos com trabalhada educação e estudada elegância.

A força dramática dos temas centrais não é, no entanto, menor nesse concerto para música de câmara. E o amargo travo ao final tampouco é menos decepcionante para aqueles que esperam de seus "heróis" na tela a coragem e honestidade que gostariam de ver nas ruas.

Sobra, como lembra Solange a meu lado, o carinho e a sabedoria do pai de Elio: o que conta é o amor, o que vale é a vida.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso