o poeta é um fingidor (Fernando Pessoa)


Depois de Sete Anos e de Fim, Fernanda Torres, a artista múltiple, nos presenteia "A glória e seu cortejo de horrores". A trajetória do artista, do anominato, às lantejoulas da glória e ao drama final é também a história, sintética e expressiva, do teatro e da TV brasileiras ao longo de nossas últimas e movimentadas décadas de vida política. Em primeira pessoa, na primeira parte, seguimos pelos olhos de Mario Cardoso as alterações na vida teatral e da sociedade cariocas. Ouvimos também o relato confessional da obsessão que tanto acomete o artista na perseguição da recriação da vida "verdadeira ou na encarnação da personagem.

Na segunda parte, em discurso indireto livre, Fernanda narra, com indisfarçável paixão e grande força, o último capítulo da queda e o primeiro do encontro final de Mario com suas personagens e sua arte. Digno de Fernando Pessoa (Autopsicografia):

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso