um tratamento revelador


Talvez seja exagero, mas prá mim o problema começa no tratamento consagrado aos congressistas e reclamado pelos mais altos hierarcas da Administração. O Vossa Exelência já remete o interlocutor a uma situação de inferioridade, condenado a dirigir-se indiretamente aos "notáveis por decreto". Confinados a nossa insignificância, nos dirigimos primeiro à suposta excelência de nossos interlocutores, na esperança de que os anjos digam amém e nossas palavras cheguem aos excelsos ouvidos.

Seria muito mais republicano o tratamento direto, olho do olho, do Tu, ainda que com o verbo na terceira pessoa como costumamos usar. Ou o Você, a despeito de sua origem também indireta no Vossa Mercê, pelo menos muito mais plebeu. Nesse sentido, o You dos americanos já revela ou pelo menos acena com uma situação menos desigual e, consequentemente, mais adequada à vida democrática.

A salutar transparência do "ao vivo e em direto" põe a nú o descabido do tratamento, quando não - como infelizmente ocorre com preocupante frequência - escancara o despreparo, a alienação e até a imbecilidade de Suas Excelências.

Olhemos nos olhos. E falemos direta e francamente, sem prejuízo da devida vênia à educação e o dever do respeito ao próximo. Bípedes, mamíferos e supostamente racionais todos.

Deixemos as incelenças aos defuntos. Afinal, as carpideiras são profissionais e saberão sempre encontrar méritos em quem não os tenha, virtudes em mostruários de vícios...


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