Gabeira


Boa parte da crítica especializada brindou Moacyr Goes com reticências, quanto não flechadas. Nada delas faltou tampouco a Gabeira. Admirador confesso da personagem, penso que Moacyr Goe fez uma opção correta: o palco é de Gabeira e a atenção vai toda para seu testemunho.

A exemplo de quase todo depoimento, ficou incompleto. Tanta coisa mais poderia ter sido abordada por Gabeira ou os entrevistados que depõem sobre sua trajetória. Não faltam porém a clareza e a honestidade de sempre ao que Gabeira fala. Como negar (conquanto se admita que a unaminidade será burra - como dizia Nelson Rodrigues - ou simplesmente inalcançável) que a ditadura do proletariado e a democracia representativa impliquem necessariamente contradição? Como não admitir que todos, incluídas as torcidas do Flamengo e do Botafogo, tenhamos alguma vez evoluído, involuído ou simplesmente mudado de opinião? Como deixar de reconhecer que a história (a despeito da exuberância da irracionalidade e da intolerância de agora) já diminuiu parte das diferenças ideológicas fundamentais e que somos hoje muito mais sensíveis a questões ambientais e aos chamados temas de consciência de que aborto e casamento de pessoas do mesmo sexo são dois dos maiores exemplos?

Além da inteligência e da coragem de somar esforços para implementar aquilo em que acredita ou acreditava, uma das maiores qualidades de Gabeira é exatamente não fugir à dúvida, nem tentar suprimir o debate. Antes - como afirma - manter-se longe do cinismo.


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