No intenso agora


João Moreira Salles não poderia ser mais feliz na escolha do título para a memória, confessional, dos revolucionários anos 60. Em contextos distintos, por razões diferentes, a febre de recriar o mundo - se necessário, pela força - , a euforia de revolução, seu fracasso ou sequestro por antagonistas sucederam-se em sociedades tão dissímiles como as da França, da Tchecoslováquia, da China ou do Brasil de então.

Em comum: a paixão por mudar a realidade; a completa entrega à ação; e o desencanto que sobreveio na reação, na repressão, na indiferença, ou na rotina do quotidiano que retomava os espaços e tempo. Nem toda revolução degenera em governo. Muitas goram antes de poderem celebrar sua vitória. Ganhos residuais, conquanto importantes quando não essenciais para a evolução a longo prazo, não têm o mesmo gosto, nem são comemorados com igual intensidade.

Com o confessional vem o resgate de cenas de uma família que, por sua condição econômica, flutuava, intocada e intocável, sobre um mundo em ebulição. Inclui a reação de admiração da comitiva que integrou a mãe de João Moreira Salles à China de Mao e da Revolução Cultural. Mas está longe de se esgotar aí.

Afinal, com as diferenças implicadas pela situação sócio-política, inteligência e sensibilidade pessoais, temos todos um confessional, mais ou menos confessável ou interessante, do mundo em tempestade ou calmaria.


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