Reaganomics revisitado


Não surpreende. Trump prometera. Verdade que outras promessas o vento levou, ou aguardam alguma tarde modorrenta para serem twitadas como o mais recente ovo de Colombo. Mas a Câmara já aprovou e agora é com o Senado: o pacote tributário de Trump ameaça virar lei. E adentra o gramado assustando até veteranos e assombrando aprendizes de feiticeiro.

O bombom para o contribuinte segue basicamente a receita do Sumo Sacerdote Reagan: cortam-se as alíquotas mais altas para que os que mais podem tenham mais para investir. Alguém remediado como Trump poderia - calculam alguns - economizar assim uns US$20 milhões. Haja investimento! E os últimos exemplares da classe média ameaçada de extinção economizariam, por sua vez, uns US$1.182,00 por ano. Quem sabe se uma TV maior?

Como se aprende sempre algo, até com a ressaca das oferendas a Baco, cerca de 400 (impressionou-me o número na imprensa) multimilionários e bilionários americanos estariam fazendo um movimento junto aos Senadores para que não contribuam para o agravamento da concentração de renda e do desequilíbrio na sua distribuição. Imagino a perplexidade de Reagan com a reação à generosa oferta de seu mais legítimo sucessor, ao Norte, ao trono do Grande Comunicador.

Esparramo ainda muito maior pode, no entanto, advir com a parte dois do projeto: a carga fiscal sobre as empresas nos EUA, hoje de 35% (regimes especiais à parte), fica reduzida a modestos 20%. E aqui pode sobrar para todo o mundo. Literalmente.

Os EUA são o mercado mais cobiçado. Lideram em quase todos os setores da tecnologia e inovação. Protagonizam os grandes ganhos e as estrepitosas perdas do sistema financeiro internacional. Emitem a única moeda mais próxima do livre curso mundial. Seus títulos lastreiam as reservas de países como a China ou o Brasil. Comandaram com suas transnacionais a mais recente onda da globalização, depois das caravelas e da revolução industrial inglesa. Exportaram parte do processo produtivo com a poluição e a opção por mão-de-obra mais barata. Transferiram para países que praticam "taxas corporativas altamente competitivas" suas sedes e contadores.

Pelo menos até que se consiga advinhar melhor possíveis desdobramentos, a previsão será de insônia em Amsterdam, Viena, Dublin, e também em Londres, onde a PM May flertava em cortar substantivamente as taxas corporativas na Grã Bretanha, de volta à vida de solteira. Com a automação crescente, quanto demoraria, em um novo cenário, para linhas de montagem serem movidas para os EUA antes que o mal-sinado muro saia também do plano do imaginário? Ou quanto poderia demorar para que um dólar. em alta sustentada, encarecesse insumos de que dependemos e puxasse os juros para cima nos EUA, ampliando ainda mais a liderança daquele país como principal destino de investimento diretos estrangeiros?


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso