O Jornal, no teatro; obscurantismo e colonialismo de mãos dadas no mundo


Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas codirigem uma excelente montagem de O Jornal The Rolling Stones, no Teatro Poeira. Um elenco jovem e afiado: André Luiz Miranda, Danilo Ferreira, Indira Nascimento, Heloisa Jorge, Marcos Giran e Marella Gobatti, brilhante em um papel particularmente difícil.

A premiada peça é do britânico Chris Urch. Três irmãos órfãos, a família perdendo a luta pela sobrevivência das "boas famílias" colonizadas, a campanha de ódio aos "sodomitas" que o jornal local comanda, e a lei de Uganda que pune severamente o homossexual e trata como cúmplices familiares e amigos.

Para o dramaturgo europeu, com isso já alcança para fazer um texto denso e uma pungente defesa dos Direitos Humanos e da não discriminação. O médico, meio britânico e meio ugandense, espelha no palco o esforço do autor para identificar-se com as demais vítimas dessa triste conjunção e sua perplexidade.

Na versão brasileira creio ver além disso o dedo que aponta mais diretamente para o colonialismo e seu pesado legado. A religião de conversão acena com grau maior de aceitação na sociedade colonizada, mas promove em contrapartida a substituição da alegria que episodicamente toma a cena em uma ou duas celebrações espontâneas, e é determinante na codificação e penalização, no caso do homossexualismo, pela moral vitoriana da metrópole.

A propósito registre-se o trabalho de Pedro José sobre A Homossexualidade Africana Pre-Colonial, escrito à guisa de comentário a Boy-Wives and Female Husbands - Studies in African Homosexualities, editado por Stephen Murray e Will Roscoe.


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