e a câmera de Marcelo capturou a alma do tempo


Razão terão os que temem ter a alma roubada pelo fotógrafo à espreita. Marcelo tirou-me a foto quando, mais Solange, explorávamos, a passos perdidos os cenários imaginários do Centro Cultural Dia, em Beacon.

Sem razão para alarme: não me senti roubado de alma - se a tenho ou tive. Mas a foto de Marcelo ficou-me clara na memória a ponto de buscá-la, passado algum tempo. É uma bela foto, como tantas outras que com engenho e arte compôs com a câmera à mão. Eu percorria as esquinas e aberturas feitas de paredes ou simplesmente de mais ou menos luz e cor. Não imaginava entrar na visão de Marcelo no momento seguinte.

Mas o que me atrai na foto não é a captura de um momento meu, mas a de uma situação que, por muitas razões óbvias - para mim - , nos remete ao tempo que vivemos. O caminho, que as paredes estreitam, é feito de luz e escuridão. A questão não é porém descobrir a luz ao final do túnel, mas esperançar que a luz chegue até lá.

Uma travessia a mais, Provavelmente outros vôos de galinha. Um recomeço forçoso a mais, que o obscurantismo e o radicalismo, unidos pela insensatez, insistem em fazer recuar ou obstaculizar.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso