porque o mal está conosco também


Mais um excelente policial brasileiro e, desta vez, a trama não é inspirada nas páginas políticas que nos mantêm a todos revoltados e a nossos escritores ocupados...Tanto quanto pude apurar, mais um livro de estreia. E que estreia. A julgar pela turma, esses novos escritores nascem prontos. O Sorriso da Hiena chega aos leitores já comprado para virar uma série na faixa de programação mais cuidada da TV.

Gustavo Ávila investiga a natureza do mal. Ele existe, pode nos fazer sofrer, mas estará conosco também? A justiça, uma vez feita, fará cessar em quem sofreu com o mal a vontade de fazer sofrer igualmente seus algozes? Essa causação circular do mal será uma sina, a massa escondida de um iceberg de uma verdadeira maldição do mal?

Em O Sorriso da Hiena, as vítimas e seus algozes, os policiais e os passantes, os profissionais da saude e seus pacientes cumprem suas funções, sofrem suas dores, convivem com o mal, o bem, a indiferença. Na sequência bárbara de assassinatos somente três dessas personagens todas têm, porém, quase que permanentemente, a dolorosa consciência de que caminham sobre a fina linha do bem e do mal. O primeiro é o assassino. O segundo, o psicólogo que acompanha os crimes e assiste às vítimas sobreviventes. O terceiro, o detetive, lúcido portador da síndrome de Asperger que lhe dá perspectivas especiais de lidar com a realidade e de se relacionar com as pessoas.

A delicada dança dessas três personagens, complexas, bem construídas e desenvolvidas, desenrola o fio condutor da narrativa. Adrenalina pura. Mais uma bruta ressaca de ensimesmamento.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso