o olho, o vazio e o sumidouro


Solange e eu fomos pela primeira vez ao Memorial onde existiram as torres do World Trade Center. Multidão. As buzinas e sirenas de N. York ao fundo. O movimento desencontrado das gentes. E, de repente, apenas o vazio, o silêncio das cascatas sobre os dois buracos no chão, e o sumidouro contínuo de toda a água pro fundo da terra.

Arrepiante, resumiu Solange.

O vazio e o sumidouro na arquitetura inspirada de Michael Arad, Peter Walker, Davis Brady Bard e equipes transmitem-nos, de um soco, o peso da destruição e a brutalidade gratuita da morte de quase três mil pessoas, de praticamente todo o mundo.

O sumidouro, o vazio completam-se na arquitetura do olho. Retina que registra a memória da destruição. Pupilas que se abrem para a luz do futuro. Mas ali, em uma tarde ensolarada de outono, a arquitetura gigantesca do olho era a baleia que fazia de todos os incontáveis Nós dentro dela, Jonas incertos de nosso amanhã.

Em lugar do “não tenho palavras” de nossas frases titubeantes, um grupo de arquitetos talentosos encontrou o caminho para a clareza de nosso sentimento: o olho, o vazio, o sumidouro.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso