Louise Bourgeois


Poucos artistas têm a graça de poder trabalhar por tantos anos e conseguem fazê-lo à maravilha, como aconteceu com Louise Bourgeois. Ao longo de quase cem anos, esta francesa radicada nos Estados Unidos, criou sem calmarias nem lapsos. Mais que justo, portanto, que o Museu de Arte Moderna de Nova York abra seu espaço mais nobre a essa grande artista.

A curadoria foi feliz em concentrar a mostra em três vertentes. Muita coisa ficou de fora. Inevitável. Mas três vertentes escolhidas dão uma ideia clara da importância e qualidade do trabalho de Louise Bourgeois.

Na primeira, as formas que por vezes ganham narrativas próprias, e a arquitetura mais elaborada em que por vezes se organizam. Formas e arquitetura se superpõem, colam-se à pele do homem. Limitam-no. Contêm-no. Deixam-lhe por vezes escapar um anseio de liberdade. Algumas das mais conhecidas são construídas como cômodos da memória. Recebem o nome de celas. Pela espiritualidade das celas dos monges. Pela danação das celas dos condenados.

Na segunda, o corpo nu do homem não lhe permite dissimular seus medos, desejos nem vulnerabilidades. Sozinho, interagindo com outro corpo nu ou no grupo social a transparência é completa. As forças vitais da criação (a maternidade), decadência e morte explicitam-se.

Na terceira, a artista já aos 80 anos recupera os retalhos do trabalho de jovem junto aos pais, na França, na restauração de tecidos e tapetes. Ela reorganiza. Recria. Desperta harmonia e cores embotadas.

Difícil ilustrar essa aventura. Fica o corpo de mulher contorcionista, que enquadra Solange, e parece ser um dos primeiros rascunhos das aranhas antropomórficas que ajudariam a consagrar a artista. Fica também a pintura de uma Santa Sebastiana, flechada de martírios e paixões.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso