Mother...ou saudades de Buñuel


Xexéu tem razão. Alguns filmes deveriam vir com a bula. E eu que pensava ser bom em abrir "romans à clef” e interpretar narrativas alegóricas, saíi perplexo e desorientado do Mother de Darren Aronofsky.

Talentoso, o diretor de O Cisne Negro e outros belos filmes, vem elétrico como nunca. Nem o engenho e a arte de Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed Harris conseguem segurar o trem em disparada de imagens e cores na tela. Afinal, são reconhecidamente bons na interpretação no tempo normal do teatro ou do cinema, mas ninguém - que eu saiba - foi até aqui formado e aprovado na representação da liberação caótica de forças do final ou do recomeço do mundo.

Verdade. O diretor disse que se propusera a filmar a criação. Não apenas a maternidade - o que não seria pouco. A saudável ambição ora incide no delírio surreal, ora na narrativa alegórica dos Testamentos. Como há de tudo um muito, não falta sequer - para o expectador brasileiro - remissão acidental ao Coração de Mãe do Teixeirinha.

O fato é que o filme passa abruptamente da pastoral ecológica à explosão de cores e sucessão frenética de imagens. Aturdido, com o ego ferido, fui embora com saudades do Buñuel. A linguagem direta. A imagem simples, mas a narrativa, ah, a narrativa...


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso